Opinião
#Opinião: Ressignificando a Riqueza: Impacto do conhecimento negro no Empreendedorismo Atual – Por Luciane Reis
A economia contemporânea, centrada na acumulação de capital e exploração de recursos, enfrenta críticas por não promover um desenvolvimento sustentável e equitativo. Crises ambientais e desigualdades crescentes refletem um sistema que privilegia o materialismo e ignora valores humanos. Em contraste, as concepções africanas de prosperidade valorizam aspectos comunitários, espirituais e ecológicos, onde a terra é sagrada e a solidariedade e conexão ancestral são essenciais. Ressignificar essas ideias pode redefinir o sucesso econômico e impulsionar um empreendedorismo mais inclusivo.
Durante a colonização, essas visões foram marginalizadas, substituídas por um modelo focado na exploração de recursos e trabalho barato, que perpetuou desigualdades estruturais. Hoje, há uma necessidade urgente de descolonizar o pensamento econômico, reconhecendo que o modelo atual não é universal. As concepções africanas de prosperidade podem fundamentar um novo tipo de empreendedorismo, centrado em justiça social e equilíbrio ambiental, promovendo transformações práticas nos negócios.
Empreendimentos que priorizam a coletividade e a sustentabilidade podem trazer soluções inovadoras para problemas globais, como a crise ambiental. Empresas que adotam práticas agrícolas sustentáveis e modelos de economia circular, centrados no impacto social e na preservação ecológica, já se destacam como exemplos de inovação e resiliência.
Essas iniciativas refletem as teorias de pensadores negros que defendem a descolonização do conhecimento e a valorização das narrativas intelectuais racializadas. As soluções para os desafios africanos devem emergir de suas próprias comunidades, com base em seus valores e tradições. Descolonizar as narrativas econômicas não apenas recupera a dignidade dessas sociedades, mas também oferece ao mundo uma alternativa viável e necessária para um futuro mais justo e sustentável.
Incorporar valores africanos de solidariedade, respeito local e coletividade no processo de formação e conhecimento voltado para o empreendedorismo pode oferecer uma resposta eficaz à demanda por um modelo econômico mais humano. Isso requer que instituições e indivíduos adotem uma postura crítica em relação às práticas econômicas atuais, comprometendo-se com mudanças profundas.
A transformação institucional é essencial. Acemoglu e Robinson, em Por que as Nações Fracassam, afirmam que o desenvolvimento sustentável depende de instituições inclusivas. As estruturas excludentes, herdadas do colonialismo, a exemplo do Brasil, ainda limitam o acesso ao mercado e a participação política de economias racializadas. Para que o empreendedorismo baseado em valores africanos prospere, é necessário superar essas barreiras e implementar políticas públicas que promovam uma economia mais inclusiva.
Essa ressignificação das concepções africanas de riqueza e conhecimento não é um retorno ao passado, mas uma reconciliação com ele. Trata-se de reconhecer que as sociedades africanas têm muito a ensinar sobre prosperidade e bem-estar. Para que isso ocorra, é preciso um esforço coletivo para valorizar esses saberes e integrá-los às economias globais.
Construir uma economia global mais equitativa e sustentável depende da valorização das concepções teóricas e econômica africana de riqueza. Resgatar esses valores, marginalizados pela colonização e pelo capitalismo moderno, oferece uma oportunidade para práticas empresariais que priorizem o bem-estar comunitário e a sustentabilidade. O futuro do empreendedorismo deve incorporar princípios que promovam a justiça social, a preservação ambiental e o respeito à diversidade cultural, guiados pelas concepções africanas de prosperidade para um futuro mais próspero para todos.
Luciane Reis é comunicóloga, graduada em Publicidade e Propaganda pela UCSAL, possui especialização em Produção de Conteúdo para Educação Online e mestrado em Desenvolvimento e Gestão Social pela UFBA. Trabalha em projetos que visam fortalecer o capital intelectual negro na economia do conhecimento, tem experiência em coordenação governamental e iniciativas sociais. Atualmente, desenvolve a plataforma Mercafro, promovendo inclusão e igualdade na economia do conhecimento.
Luciane Reis é Publicitária, Design Instrucional e Mestra em Desenvolvimento e Gestão Ciags – UFBA. Pesquisadora da História Econômica Negra
Artigos
Parentalidades negras: Dói Gerar? – Por Aline Lisbôa
Aos 20 anos, ganhei minha primeira filha. Lembro que o meu maior desespero, naquele momento, não foi a maternidade em si, mas o medo de me tornar mais uma “guerreira”. Essa palavra, tantas vezes usada como elogio, sempre me soou como uma armadilha. “Guerreira” era o nome dado às mulheres negras que eu via à minha volta — sempre fortes, resilientes, mas quase nunca acolhidas. Mulheres que aprendiam cedo a engolir o cansaço e a transformar dor em sobrevivência.
Gerar uma menina preta, portanto, foi uma experiência marcada por aflições e esperança. Eu já tinha letramento racial suficiente para compreender que amar, dentro de um contexto desigual, iria me doer. Não porque o amor fosse escasso, mas porque amar uma criança negra em um país racista é um ato político — e, como todo ato político, carrega resistência e feridas.
Chorei e senti medo por longos nove meses. Idealizei a infância da minha filha e, inevitavelmente, revisitei as dores da minha. Cada contração parecia carregar também o peso das minhas histórias e de todas as meninas pretas que tiveram sua doçura interrompida cedo demais.
Mas a maternidade também me devolveu à criança viva que ainda existia dentro de mim. Quando minha filha sofreu seu primeiro episódio de violência racial, senti algo que nunca havia sentido antes: uma força ancestral que me empurrava a reagir. Era como se, naquele instante, eu fizesse as pazes com o silêncio imposto à menina que eu fui. Pela primeira vez, não calei. Escrevi, falei, denunciei. A maternidade, para mim, tornou-se um espaço de elaboração e cura coletiva.
A partir daí, passei a acreditar mais profundamente na potência transformadora do letramento racial nas famílias negras. É por meio dele que compreendemos o funcionamento do racismo estrutural e as relações desiguais entre pessoas negras e brancas — um sistema que atravessa as infâncias, molda oportunidades e define afetos. Educar uma criança negra sem esse entendimento é deixá-la vulnerável a uma violência que, muitas vezes, começa na escola, nas telas, ou no olhar do outro.
O letramento racial, portanto, não é um luxo intelectual: é uma ferramenta de sobrevivência e dignidade. Ele nos ajuda a nomear as dores, a identificar o racismo, e a responder a ele com consciência e estratégia — não mais com silêncio e culpa.
Lembro-me da matriarca da minha família, minha bisavó Celina. Mulher preta, sem estudos formais, mas dona de uma sabedoria que hoje reconheço como ancestral. Ela entendia, à sua maneira, o funcionamento do mundo e sabia como proteger seus filhos, netos e bisnetos. Sua forma de amor era também resistência. Celina não falava de “letramento racial”, mas vivia a prática da reexistência todos os dias — ensinando-nos a caminhar com dignidade mesmo quando o caminho era de pedras.
Hoje, quando olho para minha filha, percebo que gerar uma criança preta foi, acima de tudo, um ato revolucionário. Porque gerar, nesse corpo e nesse tempo, é também desafiar o projeto histórico que tentou nos apagar. E ser mãe/pai negros, com consciência racial, é transformar o medo em força, o silêncio em palavra, e o amor em luta.
Aline Lisbôa é mulher, negra, nordestina, mãe, educadora antirracista, consultora de diversidade, equidade e inclusão, pedagoga, psicopedagoga e pesquisadora, além de articulista e escritora. Seu livro “Quantos sim cabem em um não” está disponível AQUI.
Opinião
Trançar é trabalho: o reconhecimento oficial é vitória, mas a luta continua
Em junho de 2025, o Brasil deu um passo histórico: a profissão de trancista foi oficialmente reconhecida na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sob o código 5193-15. Isso significa que o Estado, através do Ministério do Trabalho e Emprego, reconhece, de forma tardia, que trançar cabelos é ofício, é arte, é cuidado, é economia viva. E mais do que tudo isso: é trabalho.
O reconhecimento representa uma conquista fundamental para milhares de mulheres, em sua maioria negras, que sustentam suas casas e comunidades com as mãos, os fios e os saberes ancestrais que atravessam gerações. Trata-se de uma reparação simbólica e política, que marca o início de uma nova etapa para essas profissionais: a da reivindicação por direitos reais.
Mas é preciso deixar claro: esse reconhecimento, apesar de histórico, não resolve os problemas estruturais enfrentados pelas trancistas no cotidiano. A informalidade ainda é massiva. A precariedade também.
Trançar é estar horas seguidas em pé, muitas vezes sem pausas, sem ergonomia adequada, sem alimentação garantida. É adoecer com dores musculares, tendinites, varizes e não ter acesso a atendimento médico regular ou benefícios trabalhistas. É trabalhar em casa, dividindo o espaço com filhos pequenos, improvisando berços ao lado da cadeira de trança. É ser artista, psicóloga, educadora — tudo isso num ambiente que raramente é chamado de “profissional”.
Além do desgaste físico e emocional, existe o estigma. Por muito tempo, a atividade foi vista como “bico”, “coisa de quem não tem estudo”, ou “trabalho informal de periferia”. Esse racismo estrutural que desvaloriza o fazer preto, que silencia os saberes afrocentrados, também se manifesta nas ausências do Estado: não há linhas de financiamento específicas para esses negócios, nem políticas de formação técnica acessíveis, nem políticas de saúde do trabalho voltadas à realidade dessas mulheres.
O reconhecimento na CBO precisa ser mais que um selo burocrático. Ele deve abrir caminhos para políticas públicas efetivas: acesso facilitado à formalização, capacitação profissional gratuita, inclusão previdenciária, incentivos para empreendedoras da beleza negra, cuidados com a saúde física e mental dessas profissionais. Precisa ser prioridade nos planos municipais e estaduais de economia criativa, de cultura e de geração de renda.
Também é hora de rever o que se entende por “profissão”. O saber que vem da oralidade, da prática cotidiana e da vivência comunitária precisa ser valorizado tanto quanto aquele que vem da academia. Os saberes se der trancista são ensinados de mãe pra filha, de amiga pra amiga, nas vielas, nos quintais e nos salões. E isso é educação também. Isso é conhecimento.
Reconhecer as trancistas é reconhecer o valor da cultura afro-brasileira, a potência das periferias e a força das mulheres negras que movem o país com suas mãos. É legitimar que fazer trança é mais que estética — é identidade, resistência e construção de futuro.
Hoje, o nome das trancistas está, enfim, no papel. Mas a dignidade do trabalho vai além da formalidade. Exige investimento, cuidado e respeito. Porque trançar é trabalho. E como todo trabalho, merece ser protegido, valorizado e vivido com dignidade.
Por Iasmim Moreira
Opinião
CONAPIR 2025: É hora de romper a narrativa que autoriza a morte de pessoas negras – Por Luciane Reis
A Conferência Nacional de Igualdade Racial precisa confrontar o discurso oficial de segurança pública que desumaniza e extermina corpos negros no Brasil.
Enquanto o Brasil se prepara para a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CONAPIR) de 2025, um tema precisa ocupar o centro do debate: como a narrativa oficial sobre segurança pública tem sustentado o genocídio da população negra, especialmente nas periferias urbanas.
Na Bahia, estado com a maior população negra do país, há mais de 30 anos se reforça um discurso de combate ao crime centrado em repressão e militarização. O resultado é conhecido: altíssimos índices de letalidade policial, sobretudo contra jovens negros. Mas o mais alarmante é que essa política vem acompanhada de uma comunicação que normaliza a violência estatal.
A linguagem da “guerra às drogas”, do “confronto” e do “bandido abatido” desumaniza as vítimas e esvazia o debate público. A sociedade é anestesiada por uma narrativa que transforma assassinatos em estatísticas e legitima a violência como forma de controle social.
O silêncio coletivo diante dessas mortes não é natural — ele é construído. É produto de uma comunicação estratégica que define quem deve ser temido, controlado ou eliminado. E os meios de comunicação, ao reproduzirem as versões oficiais sem questionamento, reforçam essa lógica.
A CONAPIR 2025 não pode ignorar esse pacto de silenciamento. Se pretende ser um marco real na promoção da igualdade racial, precisa enfrentar esse modelo de segurança e a forma como ele é comunicado. Isso significa:
- Exigir uma comunicação pública antirracista, que enfrente os estigmas históricos contra a população negra;
- Estabelecer protocolos responsáveis para a cobertura midiática de violência, que respeitem os direitos humanos;
- Apoiar a mídia negra e periférica, que já produz contra-narrativas fundamentais;
- Revisar as políticas de segurança com foco em cuidado, prevenção e reparação racial, e não em extermínio.
Segurança pública não é sinônimo de controle e morte. É direito à vida com dignidade, especialmente para aqueles que historicamente foram alvos do Estado.
Sem romper com essa narrativa que mata e silencia, não haverá igualdade possível.
A CONAPIR tem a chance de começar esse novo capítulo. Que não seja mais uma conferência de promessas — mas o início de uma reescrita coletiva da história, onde a vida negra não seja exceção, mas regra.
Luciane Reis é Comunicóloga, graduada em Publicidade e Propaganda pela UCSAL, especialista em Produção de Conteúdo para Educação e mestra em Desenvolvimento e Gestão pela UFBA e CEO Mercafro
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