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#Opinião: Quando Ogum abre estrada pra Oxum, Xangô acompanha – por Patrícia Bernardes Sousa
Salvador amanheceu na primeira segunda-feira útil de 2025 com um novo ciclo de reparação promovido pelas águas do Terreiro Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Terreiro da Casa Branca. A filha de mamãe Oxum, ekedji de pai Ogum e advogada Isaura Genoveva, tomou posse cercada pela doçura sagaz de sua mãe das águas doces, as boas estradas de seu pai e seu filho Ogum e da justiça estratégica do amalá que já te acompanha desde que se formou em Direito em Salvador.
O que esperar dessa equação espiritual que sucede o pioneirismo pedagógico da secretária e professora negra Ivete Sacramento que ocupou este cargo dignamente por longo 12 anos?! Pai Ogum já definiu. Você não percebeu? A palavra de ordem é percorrer as boas estradas de reparação e justiça racial na Bahia e no mundo.
Em sua primeira ação internacional em Reparação e Justiça Social, a jovem ekedji e advogada já despontou no “grande pássaro de ferro” – o avião – e foi para as terras africanas ao lado do prefeito Bruno Reis, para selar e forjar ainda mais esse acordo tácito de mudança e planejamento estratégico para o nosso povo preto, em sua nova estrada como gestora pública de uma secretaria cercada de altos e baixos quando o assunto é as palpitações e taquicardias das políticas públicas sociais e letramento racial empresarial na capital baiana. Expectativas em excesso geram frustração, sempre dizem, mas a menina preta do imaterial Terreiro Casa Branca já notou que tão quão a sua cadeira de ekedji, a sua cadeira como gestora pública do enfrentamento racial ela pouco irá sentar para descansar.
Como assim, Bernardes? Na agonia e na beleza de organizar o antes, o durante e o depois de um sirè (xirê), a ekedji e advogada também será cobrada pelos seus ancestrais e pelas lideranças do movimento social, membros dos conselhos municipais das mais diversas frentes de trabalho e dos seus próprios colegas de gestão pública do governo municipal de Bruno Reis, a respeito da sua capacidade de “matar a sede” de justiça social dos soteropolitanos negros que também são cristãos, católicos, kardecistas, budistas e até mesmo ateus.
Injúria racial, racismo institucional, letramento racial, intolerância religiosa, racismo ambiental, LGBTfobia, desemprego, assédio moral e racismo religioso são alguns dos ingredientes que já “temperam” a palma das mãos dessa gestora pública, para que o açúcar e o quiabo façam justiça aos pés do machado sagrado de seu pai. Jesus Cristo entre nós, mas Obatalá também. Sem paz no ori (cabeça) não se faz justiça e nem se planeja reparação concreta para “estancar” os corações de Terreiros e Templos Religiosos das mais diversas denominações que clamam com acaçá e óleo ungido por uma escuta ativa, sensível e com estradas de resolução para as inúmeras demandas que já cercam a jovem Isaura Genoveva.
Às vésperas da festa momesca, os trabalhos de Exú e Arcanjo Miguel não param. Pedindo sempre licença e agradecendo os seus ancestrais, a nova Secretária da Reparação de Salvador já entendeu que a ronda de Ogum agora é outra em seu benefício, pois é no asfalto de terras brasileiras e estrangeiras que faz morada os negros, negras e negres esquecidos nos viadutos, no isopor da sua vida diária como ambulante e até mesmo nos barrancos que assombram os seus Terreiros e Templos Religiosos por conta da especulação imobiliária ano após ano.
Os esquecidos serão exaltados? Os já amparados pelas leis federais continuaram sendo abençoados pela atenção da gestora pública que bebe água doce como todas as outras que a antecederam? São diversas as perguntas que são feitas pelas pessoas comuns como eu e você que lê esse artigo e sabe que nem tudo Ifá pode “alafiar” ou Jesus Cristo testificar nesse momento. Como em Eclesiastes e como bem afirma pai Tempo, tudo tem o tempo certo de acontecer entre o céu e a Terra na capital baiana neste novo momento.
Sigamos em cortejo sagrado acompanhando os próximos passos que virão…
Patrícia Bernardes Sousa é yawo de Oxum do Terreiro Ilê Axé Ejigbo (Cajazeiras XI), jornalista, gestora e mobilizadora de projetos de Impacto Social e colunista do Portal Soteropreta.
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#Opinião – Pai Omolu e o seu abadô para “farmar auras” no Brasil
Em Agosto, mês em que nosso pai Omolu se faz presente na Terra, voltamos nós, abiãs, yawos , ebomis, babalorixás e yalorixás a refletir sobre exclusão, aceitação e a descoberta da beleza interior
Sim, refletir. Diversas narrativas sagradas dos Orixás nos revelam a profundidade de pai Omolu. Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo sofrem com problemas de saúde mental, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde OMS.
E o que você quer nos dizer sobre isso , Bernardes ?
A depressão deve se tornar a doença mais prevalecente na população mundial até 2030. A saúde mental se tornou uma prioridade crescente no Brasil em 2026, com 67% da população planejando investir mais em bem-estar emocional. E a Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil) iniciou a coleta de dados inéditos sobre transtornos mentais e acesso a serviços de saúde.
Uma pesquisa que visa estimar a prevalência de transtornos como depressão, ansiedade, uso de álcool e outras drogas, além de comportamentos relacionados ao suicídio. A coleta de dados considera fatores como sexo, idade, escolaridade, renda e região, bem como experiências de violência, discriminação e adversidades na infância.
A principal cerimônia para Omolu em agosto é o Olubajé, o “banquete do rei” . Mas qual banquete você tem oferecido ao seu Ori (cabeça) diariamente? O Doburu ou Abadô é a comida ritual dos orixás Obaluaê e Omolu, é o milho de pipoca estourado em uma panela, em alguns lugares com óleo (dendê), em outros com areia. Com o que você tem feito a sua pipoca ( pensamentos ) estourar ?
A tecnologia ofertada por Ogum pouco tem alimentado “boas estradas mentais” quando o assunto é serenar a alma e nos fazer refletir sobre quem somos como abiãs, yawos, ekedjs, ogans, ebomis, yalorixás ou babalorixás .
Depressão, ansiedade, transtornos de bipolaridades, transtorno compulsivo obsessivo, esquizofrenia, bournout e até mesmo suicídio tem chegado aos holofotes com mais frequência do que anteriormente tínhamos visto.
Pedidos de misericórdia têm dado ilá (sinal de que o orixá está em terra) mais alto e muito maior que o próprio barulho da “flor do velho” estourando na panela em pressão máxima no fogo.
E o que você quer nos dizer sobre isso , Bernardes ?
Não há abadô , doburu ou recolhimento que alcance a cura e a sanidade total da matéria se o seu Ori já foi debulhado em águas sujas de seus próprios pensamentos. Transtornos mentais são a 3ª maior causa de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas de doenças osteomusculares e lesões, segundo o INSS.
O suicídio é a 4ª principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil, segundo a OMS. O Brasil perde R$ 78 bilhões por ano com afastamentos e queda de produtividade relacionados a transtornos mentais, segundo estimativas baseadas em dados do INSS e Previdência Social.
Como você tem alimentado o seu Ori (cabeça) para verdadeiramente tornar o seu Odu (caminho/ destino) positivo? Até quando você vai aguardar que a “flor do velho”, em toda a sua misericórdia, faça o trabalho que é da sua responsabilidade diária fazer ?
Alimentar nosso Ori é alimentar nossa consciência espiritual, o destino e a identidade divina de cada pessoa existente na Terra.
E o que você quer nos dizer sobre isso , Bernardes ?
Quando falamos sobre alimentar Ori (cabeça), estamos falando sobre nutrir a nossa essência e a nossa energia da forma certa. Não temos ciência ou consciência do que foi acordado na nossa família espiritual no céu.
Não temos autoridade espiritual de dizer a quem quer que seja que o problema vivido pela pessoa é “coisa de orixá”, é “ximba de orixá” ou o ofó (palavra) de derrota que ela própria afirma sobre si diariamente. Mesmo após ter pago um ebó grandioso diante do seu igbá, ou da natureza, para afastar transtornos mentais momentâneos ou de natureza contíua; Ossá , por exemplo .
Em silêncio também se vivem loucuras internas. A dor tem sido tão grande entre nós meros mortais que, mesmo sendo pessoas de orixá, a sensação de não pertencimento tem tornado pessoas aparentemente formidáveis em seres Ori Buruku: pessoa que vive inventando mentiras e fazendo fofocas, porém quando questionado, pega a tangente e entra logo com outro assunto.
Com quem você tem caminhado diariamente? Com quem você tem compartilhado os seus desafios e vitórias diariamente? Quando você percebeu que a sua reação era diferente diante da vitória de sua irmã (o) de axé, vizinha(o), colega de trabalho ?!
O que é do Orixá , entrega ao Orixá.
O que é do “Homem do Anel”, entrega ao “ Homem do Anel”.
Tempo, Iroko e Kitembo são Orixá, mas nem tudo se cura deixando essa energia quântica e mutável passar.
Deixo aqui essa minha humilde reflexão.
Patrícia Bernardes Sousa é yawo de Oxum do Ilê Axé Koboxê (Fazenda Grande IV Cajazeiras), jornalista, gestora e mobilizadora de projetos de Impacto Social.
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#Opinião – O eu, o outro, o nós e Yansã! – Por Patricia Bernardes
Quantos acarás são necessários para acalmar a tristeza de uma escritora? Quantos litros de Aruá (ou Aluá) são necessários para matar a sede dos Erês numa atividade literária? Desde o mês de novembro de 2025, mês das celebrações da Consciência Negra, assistimos uma escritora e uma série de áudios que não nos fortalecem enquanto a laicidade de nosso próprio país .
Voltando um pouco no tempo, sendo ele também uma divindade – orixá nas religiões de matriz africana – me peguei a refletir e também a tentar entender como e de que forma a violência psicológica, a indolência, a truculência e a intolerância religiosa foram inseridas na Base Nacional Comum Curricular? E como tiveram as suas competências e habilidades distorcidas a ponto de permitir e ser cúmplice de uma guarnição policial em ambiência escolar?
Sou yawo de Oxum, jornalista, repórter, colunista, mas iniciei a minha jornada na escrita humanizada como professora e, posteriormente, como Docente Superior. Minha tese orientada e aprovada pela Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC), teve como base/tema “O Ensino Religioso e a Base Nacional Comum Curricular”. Nela, por diversas vezes, o eixo “ O eu, o outro e o nós” nos convida a reflexões em sala de aula que levarão crianças da Educação Infantil ao aprendizado e a demonstrar empatia pelos outros, percebendo que as pessoas tem diferentes sentimentos, necessidades e maneiras de pensar e agir.
E quando o “nós” são os adultos ?!
As crianças pequenas, quando tem a oportunidade de vivenciar diversas situações de interação em que observam e atentam para as expressões e formas de comunicação dos outros e para o efeito de suas ações sobre eles, aprendem a ser sensíveis aos sentimentos, desejos e necessidades dos demais. Assim também acontecem em eventos literários dentro das unidades escolares públicas e privadas. A ampliação das relações interpessoais, desenvolvendo atitudes de participação e cooperação.

E quando Ogum é convocado a guerrear e Oxalá é clamado logo depois?
Fiquei me perguntando e refletindo sobre a situação constrangedora na qual Ajè foi alimentada por um pai que, em sua ignorância inocente, chamou a polícia para a gestão escolar em total desalinho pela escrita e oralidade de uma escritora.
Como uma obra literária infantil que integra o acervo oficial da rede municipal de ensino de um Estado Brasileiro e também é reconhecida pelo selo Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), pode representar “ameaça” à formação da intelectualidade e ao desenvolvimento cognitivo de uma criança de 4 anos?
Litros de água doce e quilos de milho branco para papai Oxalá não conseguiriam conter a força policial sem capacitação para intervir diante de tantas palavras, distorcendo e demonizando a nossa própria cultura ancestral.
A manifestação de interesse e respeito por diferentes culturas e modos de vida, também está presente nas competências e habilidades da Base Nacional Comum Curricular quando o assunto é acolher eventos e ações pedagógicas literárias em uma unidade escolar.
Quem irá tratar das sequelas psicológicas deste Erê diante do armamento pesado instituído pela sua arte em retratar Yansã?
Quem irá capacitar o Ori (cabeça) desse agrupamento policial legitimado a adentrar unidades escolares pelo Brasil?
Quem irá nos proteger diante de uma Constituição Federal que afirma ser laica e uma vivência diária com requintes de ódio e temperados com áudios repletos de retaliação e coação à gestão escolar democrática no Brasil ?
Exú, divindade yorubá rotineiramente demonizada, aguarda as suas oferendas desde ontem já que hoje ele já não se preocupa mais, pois o amanhã já foi desenhado nos acordos espirituais de cada personagem da história que acabei de refletir neste meu texto.
Exú no caos continua a reunir fatos, testemunhas e relatos fortes para que a Constituição Federal seja aplicada em favor das vítimas de intolerância religiosa no país chamado Brasil. Sem denúncia não há precedente. Docentes, gestores escolares e escritores seguem em marcha explorando alteridades e identidades aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) desde o mês de Dezembro de 2017.
Xangô caminha lado a lado com sua amada Yansã e é sabedor de que, sem a água fresca e doce, tanto o seu quiabo quanto o feijão fradinho não conseguem nos alimentar de justiça com um bom Amalá e os seus nove acarás. A construção da identidade, da subjetividade, das relações interpessoais e do respeito próprio e coletivo está entre os objetivos propostos pela BNCC.
Provérbios 21:15: “É alegria para o justo fazer justiça; mas é terror para os que praticam a iniquidade.”
Odus são presságios, são destinos, predestinações. O Odu negativo representa aspectos desafiadores ou bloqueios no destino e na conduta de uma pessoa, refletindo a necessidade de ajustes pessoais e espirituais dos brasileiros. Um Corpo Docente adoecido e exausto e uma Gestão Escolar perseguida por favores políticos/partidários que confrontam a paz em uma unidade escolar precisam de um clamor genuíno por mudança .
Sigo com fé o meu caminho de Aruanda.
Patrícia Bernardes Sousa é yawo de Oxum do Ilê Axé Koboxê (Fazenda Grande IV Cajazeiras), jornalista, gestora e mobilizadora de projetos de Impacto Social.
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#Opinião Jornalismo negro: o mercado que o Brasil ainda insiste em não enxergar!
O debate sobre o futuro do jornalismo negro precisa deixar de ser tratado apenas como uma pauta de diversidade. A questão é econômica. Diz respeito à produção de conhecimento, à circulação de riqueza, ao fortalecimento da democracia e à construção de um mercado estratégico que o Brasil ainda reluta em reconhecer.
Essa percepção ganhou força durante o painel “Jornalismo Negro: da militância ao modelo de negócio sustentável”, realizado no AFROBUSSINESS Comunicação. Mais do que discutir comunicação, o encontro colocou em evidência uma pergunta essencial: como transformar a produção intelectual negra em infraestrutura econômica permanente?
Ainda são poucos os eventos que tratam a realidade empresarial negra como estratégia de desenvolvimento baseada na informação e no conhecimento. Quando pessoas negras aparecem no debate público, geralmente ocupam dois lugares: o da desigualdade ou o da representatividade. Ambos são fundamentais, mas insuficientes.
Existe uma terceira perspectiva que continua pouco explorada: reconhecer pessoas negras como produtoras de riqueza, formuladoras de conhecimento, criadoras de tecnologias sociais e protagonistas de novos mercados.
Essa mudança de olhar altera completamente a pergunta.
Em vez de discutir apenas como incluir pessoas negras no mercado, talvez seja hora de perguntar que mercados podem surgir quando elas passam a ser reconhecidas como inteligência econômica.
Na comunicação, essa mudança é urgente.
O jornalismo negro nasceu muito antes das redes sociais. Desde o século XIX, jornais produzidos pela população negra documentaram acontecimentos ignorados pela imprensa tradicional, denunciaram o racismo, preservaram memórias e fortaleceram processos de organização política e cidadã.
Reduzir essa trajetória à militância é um erro histórico e também econômico. A militância negra sempre produziu valor.
Produziu linguagem, reputação, confiança, redes de relacionamento, arquivos, conhecimento, inovação e capacidade de mobilização. O que historicamente não foi construído foram mecanismos capazes de transformar esse patrimônio em receita recorrente, organizações sólidas e remuneração compatível com sua importância social.
Esse talvez seja o principal desafio da comunicação negra contemporânea. Não se trata de abandonar o propósito para criar empresas. Trata-se de construir empresas capazes de sustentar o propósito.
Como jornalista, publicitária e pesquisadora das dinâmicas econômicas racializadas, passei a enxergar o jornalismo para além da notícia. Uma reportagem pode se tornar pesquisa de mercado. Uma investigação pode dar origem a uma consultoria. Um banco de fontes pode se transformar em inteligência institucional. Um conjunto de entrevistas pode resultar em cursos, livros, newsletters, documentários, produtos educacionais ou metodologias de formação.
Essa é uma das características da nova economia da comunicação.
Durante décadas, o jornalismo funcionou por meio de um modelo relativamente estável. Produzia informação, organizava a atenção pública, financiava-se pela publicidade e oferecia credibilidade às marcas.
A transformação digital rompeu esse equilíbrio.
As plataformas passaram a controlar audiência, distribuição e dados. Os produtores permaneceram responsáveis justamente pela etapa mais cara do processo: investigar, contextualizar, interpretar fatos e construir confiança. Para iniciativas negras, essa ruptura foi ainda mais profunda.
Grande parte dos veículos nasce sem capital inicial, sem estrutura empresarial e sem acesso permanente a financiamento. Muitos sobrevivem graças ao trabalho voluntário, ao acúmulo de funções por parte de seus fundadores e ao compromisso político de suas equipes.
Esse modelo produz impacto social.
Mas dificilmente produz continuidade.
E sem continuidade não existe legado.
É preciso romper a romantização da precariedade.
Não há mérito em jornalistas negros sustentarem projetos fundamentais às custas do próprio esgotamento. Tampouco é razoável que veículos negros sejam lembrados apenas durante o mês da Consciência Negra ou em campanhas temporárias de diversidade.
Valorizar o jornalismo negro exige muito mais do que reconhecimento simbólico.
Exige contratação.
Exige assinaturas.
Exige patrocínio.
Exige investimento permanente.
Sobretudo, exige circulação de recursos.
Consumir produção intelectual negra precisa deixar de ser apenas um gesto político para tornar-se também uma decisão econômica.
Isso significa assinar newsletters, adquirir livros, contratar consultorias, financiar pesquisas, apoiar veículos independentes e reconhecer especialistas negros para discutir economia, tecnologia, ciência, inovação, sustentabilidade, políticas públicas e negócios e não apenas racismo.
Há uma pergunta que o mercado brasileiro ainda evita responder:
Se afirmamos valorizar a produção intelectual negra, por que ela continua sendo uma das menos financiadas do país?
Responder a essa questão exige compreender que a comunicação racializada deixou de ser apenas um segmento editorial.
Ela constitui um mercado.
Um mercado que reúne jornalismo, branding, inteligência cultural, pesquisa aplicada, produção audiovisual, análise de dados, educação corporativa, reputação institucional, curadoria de conhecimento e desenvolvimento de produtos voltados para organizações públicas e privadas.
As transformações recentes da economia reforçam esse potencial.
A primeira delas é a economia da confiança.
Em um ambiente marcado pela inteligência artificial, pela desinformação e pelo excesso de informação, confiança tornou-se um dos ativos econômicos mais valiosos. Poucos segmentos acumulam tanta legitimidade junto às suas comunidades quanto o jornalismo negro.
A segunda transformação é a economia das emoções.
Empresas de pesquisa de tendências apontam que consumidores serão cada vez mais influenciados por sentimentos como esperança, pertencimento, exaustão, busca por significado e necessidade de conexão humana. Compreender esses movimentos deixou de ser apenas uma questão cultural; tornou-se uma vantagem competitiva.
Nesse aspecto, o jornalismo negro possui um diferencial importante.
Ele interpreta dimensões profundas da experiência humana ancestralidade, autoestima, exclusão,pertencimento e reconhecimento que influenciam decisões econômicas tanto quanto renda, preço ou crédito.
Há ainda uma terceira transformção.
A audiência está dando lugar às comunidades.
Seguidores não garantem sustentabilidade.
Comunidades, sim.
Por isso, veículos independentes precisam fortalecer canais próprios, criar bases de assinantes, desenvolver produtos recorrentes, construir bancos de fontes, investir em inteligência de dados e reduzir sua dependência dos algoritmos.
A inteligência artificial amplia ainda mais esse debate.
Ela acelera processos, reduz custos e democratiza ferramentas. Mas também impõe perguntas decisivas.
Quem produz os dados?
Quem treina os modelos?
Quem captura valor?
Quem permanece invisível?
Se essas perguntas não forem respondidas, a tecnologia apenas reproduzirá desigualdades históricas.
Por isso, o jornalismo negro não pode ocupar apenas o lugar da reação.
Precisa ocupar também o lugar da formulação.
Formulação de métodos.
Formulação de mercados.
Formulação de soluções.
Formulação de novos modelos de desenvolvimento.
Esse movimento passa também pelo fortalecimento do autoemprego qualificado.
Não como substituição das responsabilidades do Estado ou das empresas, mas como estratégia concreta de autonomia econômica para profissionais que continuam encontrando barreiras de acesso, ascensão e reconhecimento.
Transformar conhecimento em consultoria.
Pesquisa em produto.
Experiência em metodologia.
Repertório em negócio.
Nenhuma dessas iniciativas, porém, prospera sem gestão.
É preciso discutir precificação, contratos, propriedade intelectual, governança, educação financeira, tecnologia e modelos sustentáveis de receita.
Propósito sem sustentabilidade financeira produz esgotamento. Sustentabilidade sem propósito produz irrelevância. O desafio é construir organizações capazes de reunir ambos.
Ao abrir espaço para esse debate, o AFROBUSSINESS desloca a pauta racial do campo exclusivamente simbólico para o terreno da estratégia econômica. Porque não existe emancipação sem infraestrutura. E infraestrutura também se constrói financiando conhecimento. A pergunta que permanece para empresas, governos, investidores e consumidores é simples:
Queremos apenas falar sobre diversidade ou estamos dispostos a financiar ecossistemas negros de produção intelectual?
Porque não existe jornalismo negro forte sem investimento. Não existe comunicação racializada sustentável sem contratação. Não existe protagonismo econômico sem circulação de renda. O jornalismo negro nunca foi um nicho. É inteligência econômica. É memória coletiva.
É leitura de país.
É infraestrutura democrática.
E talvez seja um dos mercados mais promissores para compreender o Brasil que já existe, embora muitos ainda insistam em não enxergá-lo.
Luciane Reis é Comunicóloga, graduada em Publicidade e Propaganda pela UCSAL, especialista em Produção de Conteúdo para Educação e mestra em Desenvolvimento e Gestão pela UFBA e CEO Mercafro
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