#25JUL – Arte de mulheres negras sofre grande impacto com a pandemia


Deise Fatuma | Foto Lumena Aleluia

 

Sendo o setor que primeiro sofreu as limitações impostas pela pandemia, a Cultura tem sido um espaço de transformação desde março de 2020. E pelo que se prevê, será o último setor retomar sua normalidade. Um “novo normal” vem sendo imposto nessa área, levando para o virtual muitas de suas realizações, uma vez que casas de espetáculos, museus, teatros, bares e muitos outros espaços culturais fecharam ou reduziram seu funcionamento. Para artistas negras, em especial as que dependem da arte, essa realidade vem sendo mais impactante.

“A pandemia, infelizmente, agravou a desigualdade social, colocando as mulheres negras num abismo devastador. No que se refere ao campo da cultura, não foi diferente pra quem trabalha nesta cadeia produtiva direta e indiretamente. Eu sou percussionista e vi minha agenda fechada durante o ano de 2020 sendo cancelada. Além dos shows pelo Brasil, tinha turnê na Europa e shows nos EUA. Consequentemente, os sonhos foram adiados. Mas quem vive exclusivamente da cultura tem sentido os efeitos muito mais agudos, corrosivos, provocados pela pandemia”, diz a percussionista Deise Fatuma que participou da live “Mulheres negras em defesa da vida: Resistência histórica e enfrentamento à pandemia”, realizada pela  Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade (Sepromi).

Segundo pesquisa “Impactos da Covid-19 na Economia Criativa”, do Observatório da Economia Criativa Bahia (OBEC-BA), 79,3% dos respondentes cancelaram entre 50% e 100% de suas atividades em abril. Em maio, esse percentual foi de 77,4%. Até o mês de março, a maioria (80,7% dos respondentes) não possuía vínculo empregatício formal, recebia até 3 salários mínimos (71,3%) e possuía alta carga horária de trabalho (31,5% trabalham mais de 45h semanais). O estudo foi divulgado em setembro de 2020 e contou com a participação de 2,6 mil respondentes de diversos estados do país.

Para as artistas negras, há ainda um fator mais preponderante neste impacto: “As mulheres negras que vivem dessa cadeia produtiva, produzem uma arte fora desse padrão aceitável pela branquitude, fora do mercado fonográfico. Nesse sentido, somos marcadas por opressão e exploração interseccional. Nós estamos longe das marcas dos grandes patrocinadores que geralmente tem homens brancos no poder. Artistas brancos ricos continuaram a ganhar dinheiro na pandemia, diferente de quem faz uma arte engajada, feminista e negra”, diz Deise, que também é assistente social.

Políticas públicas afirmativas e editais tonam-se essenciais para a sobrevivência destas artistas. “A Lei Aldir Blanc foi um suspiro, e conseguiu engendrar editais que entendessem cada realidade de grupos de mulheres negras que sobrevivem das artes, dando muitas oportunidades. Então, o caminho é que mais editais sejam construídos refletindo a realidade das artistas negras”, lembra Deise, que é percussionista da Banda Panteras Negras, primeira banda instrumental formada por mulheres  lgbtqia+ no mundo.

Para atender esta demanda, nos editais gerenciados pelo Governo do Estado da Bahia, um decreto determinou que 50% dos recursos vinculados à Lei Aldir Blanc, no estado, fossem destinados a grupos de manifestação cultural da população negra, fruto da mobilização de artistas negros e negras. Nos editais do Prêmio das Artes Jorge Portugal e Prêmio de Exibição Audiovisual, gerenciados pela Fundação Cultural do Estado (Funceb/SecultBA), por exemplo, além das cotas, tiveram ainda indutores de gênero que garantiram pontuação extra em projetos propostos por mulheres.

“Veja, a cultura é tão imprescindível como a saúde, educação, assistência social, e não tem essa legitimidade enquanto política pública. Infelizmente, nós que fazemos parte dessa cadeia produtiva cultural seremos as últimas a voltar a fazer shows ao modo que a gente gosta. A cultura tem salvado as pessoas da depressão, do adoecimento mental, das crises de ansiedade, mas infelizmente não tem a valorização ideal”, pontua Deise Fatuma.

Conheça a Banda Panteras Negras

Assista abaixo live realizada pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade (Sepromi) em homenagem ao Mês da Mulher Negra: