“Duas Noites e Quatro Búzios” é o novo projeto teatral de Ângelo Flávio


01João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luís Gonzaga. Jovens negros, assassinados e expostos onde hoje conhecemos como Praça da Piedade, em Salvador. Luiza Francisca, Lucrécia Maria, Domingas Maria e Anna Romana. Mulheres que lutaram no mesmo front.

Estamos falando da Revolta dos Búzios, movimento que, em 1798, defendia a independência do país da coroa portuguesa, o fim da escravidão, um governo republicano, democrático e com liberdades plenas, o livre comércio e abertura dos portos.

Esta memória será resgatada no Solar Boa Vista (Engenho Velho da Federação), dias 7 e 8 de novembro,  pelo ator e diretor Ângelo Flávio, que chega a Salvador para apresentar seu projeto artístico teatral “Duas Noites e Quatro Búzios”, uma realização do Instituto Pedra de Raio e da Companhia Teatral Abdias Nascimento, a qual dirige. A entrada é gratuita, às 19h.

revoltadosbuziosangeloflavioO projeto pretende unir, nas duas noites, um coletivo de artistas que celebrarão a memória de luta destes jovens pela liberdade e a linguagem teatral é a escolhida para fazer um resgate e valorização da história e da memória da Revolta dos Búzios e dos seus heróis.

SERVIÇO:

Performance Teatral “Duas Noites e Quatro Búzios”

Onde: Cine Teatro Solar Boa Vista

Quando: 7 e 8 de novembro, às 19h

Quanto: Entrada Franca

Classificação: Livre

 

Ficha técnica:

Direção e roteiro: Ângelo Flávio

Ator: Amaurih Oliveira

Atrizes: Ive Carvalho e Josi Acosta

Dançarina: Marilza Oliveira

Poetas: Fabiana Lima, Jamile Santana e Pareta

Músico: Ricardo Costa

Apoio: Cine Teatro Solar Boa Vista, Acosta Produções Artísticas e Azul Designers

Realização: Instituto Pedra de Raio e Cia. Teatral Abdias Nascimento

Fela Day – Fela Kuti é centro de homenagens até sábado (15)


felaRealizado em vários países, o Fela Day celebra a música e a memória do músico nigeriano Fela Kuti, criador do afrobeat e considerado um dos artistas mais importantes do século passado. Iniciativa de admiradores e artistas influenciados por sua obra e postura política, o evento é organizado de forma espontânea, e tem como auge o dia 15 de outubro, data da nascimento de Fela Kuti, que estaria completando 78 anos.

Em Salvador, uma das iniciativas que marca o Fela Day tem na linha de frente o coletivo Blackitude – Vozes Negras da Bahia, o Sistema Kalakuta e a banda IFA. Juntos e com a participação de vários parceiros, bem ao espírito de congregação defendido pelo nigeriano, o evento mistura diferentes linguagens artísticas, em quatro dias de atividades – de quarta a sábado (12 a 15) – quase todas com entrada gratuita.

Nesta edição, o Fela Day homenageia o cientista político e escritor cubano Carlos Moore, biógrafo oficial de Fela Kuti e que está radicado em Salvador. Moore é autor de Fela – Esta Vida Puta, lançado originalmente na França nos anos 80 e publicado no Brasil em 2011, pela editora Nandyala, com prefácio de Gilberto Gil.

            As atividades começam nesta quarta, com uma edição especial do Sarau Bem Black, na Ocupação Coaty, na Ladeira da Misericórdia. A roda de poesia começa às 16h, em frente à sede da prefeitura e segue até o casarão histórico, onde acontecerá a exibição do filme FELA: a Música é a Arma (17h), seguido do sarau. Nesta edição, o Bem Black recebe o poeta paulista Akins Kintê, que lança em Salvador o livro de poemas Muzimba: Na Humildade sem Maldade, conta com intervenção visual do grafiteiro Zezé Olukemi e do artista plástico Pablo Dinada (que farão trabalhos ao vivo sobre Fela Kuti) e trilha sonora com muito afrobeat, a cargo do DJ Joe. Comandado pelo poeta Nelson Maca, o sarau conta com as poetas residentes Vera Lopes, Lúcia Helena e Luiza Santos.

            A semana segue com o bate-papo Nós e as Razões e Sentidos do Fela Day – Homenagem a Carlos Moore, que estará presente, na quinta, às 19h. O encontro será na loja Katuka Africanidades, na Praça da Sé. Participam da conversa a cantora nigeriana Okei Odili e componentes do coletivo Blackitude, do sound-system Sistema Kalakuta e da banda IFÁ. Estará presente o dj Riffs que, além de participar da conversa, fará intervenções sonoras em diálogo com os temas tratados.

Na sexta, o Fela Day retorna à Ocupação Coaty, a partir das 16h,  com performances do  Sistema Kalakuta (gratuita), que abre a fecha a seção, e  do grupo Laia Gaiatta, com participação do Tropical Selvagem (pague quanto puder).  E termina no sábado, com show da IFÁ, às 20h, no Largo Pedro Arcanjo, no Pelourinho, com participações de  Nelson Maca, Sistema Kalakuta e Okwei Odili (R$ 30-15).

PROGRAMAÇÂO

Fela Day BA 2016

1.Quarta, 12 – Sarau Bem Black – De Fela a Kintê*
– Lançamento: Muzimba: na humildade sem maldade (poemas)

de Akins Kintê (SP)
–  Intervenção visual: Zezé Olukemi e Pablo Dinada
– Dj Joe toca Fela Kuti

– Local: Ocupação Coaty, Ladeira da Misericórdia (ao lado da prefeitura)
– Horário: 17h
Entrada franca
*Concentração: Roda livre de poesia em frente à prefeitura – 16h

  1. Quinta, 13 –  Bate-papo: Nós e as Razões e Sentidos do Fela Day*
    – Homenagem a Carlos Moore

Com Coletivo Blackitude, IFÁ Afrobeat e Sistema Kalakuta
Participação: Dj Riffs
Convidada: Okwei Odili (Nigéria)
Local: Katuka Africanidades – Praça da Sé
Horário: 19h
Entrada Franca

3.Sexta, 14 – Sistema Kalakuta e Laia Gaiatta*
Local: Ocupação Coaty – Ladeira da Misericórdia
Participação: Tropical Selvagem
Intervenção visual: Pablo Dinada
Grafite: Zezé Olukemi e Convidados
Horário: A partir das 16
Entrada: Sistema Kalakuta (Free)
Laila Gaiata & Tropical Selvagem (Pague quanto puder)

4.Sábado, 15 – IFÁ
Convidados: Nelson Maca, Sistema Kalakuta e Okwei Odili
Local: Largo Pedro Arcanjo – Pelourinho
Horário: 20h
Entrada: R$ 30\ R$ 15

*Com exibição do documentário FELA: a Música é a Arma de Jean-Jacques Flori e Stéphane Tchalgadjieff (53’-1982)”

Corisco – Marcia Short celebra 30 anos de carreira com shows, DVD e reflexões


14457421_10210493824292535_2499636609879525936_nUm espetáculo de luzes, folhas, cores e canções. Com repertório especial, mesclando inéditas e antigas canções, Marcia Short apresentou aos soteropolitanos, nos dias 30/9 e 1/10, o seu show “Corisco”, uma realização de Fred Soares, com direção musical de Yacoce Simões. Celebrando 30 anos de carreira, Marcia é maturidade artística, galgada em uma trajetória que merece a chama que dá nome ao seu show. Está tudo registrado no que será seu primeiro DVD, gravado ao vivo nestas apresentações.

A casa lotada e a interação nestes dois dias revelaram o carinho e respeito do público para com esta artista que, do tabuleiro de acarajé junto com as irmãs aos palcos, trilhou um caminho de autodescobertas e lutas. “Chegar a esta etapa é algo que achava tão distante, nunca achei que fosse ser cantora, viver disso como meta e ideal de vida”, ela lembra.

Quando o primeiro filho Daniel chegou – com uma lesão no sistema nervoso central-, os desafios se engrandeceram. Sua hiperatividade e necessidade de cuidados especiais andavam junto com a música, na Banda Mel, por exemplo, quando levantou vôo. “Uma passagem fundamental, mas que não me contemplava, pois eu precisava dizer outras coisas. A cada fase da minha vida profissional, fui falando de minha história, desabafei e falei das minhas memórias afetivas, que me ajudaram a acreditar no que eu sou”, diz.

14457324_10210731835117417_7427552344702197686_nMas como estar entre as melhores, ela se perguntava. Buscou fazer como elas: Ângela Maria, Elizete Cardoso, Maria Betânia, Gal Costa, Billie Holiday, Ella Fitzgerald foram algumas das fontes em que bebeu. “Neste show Corisco eu volto para estas memórias, faço o que fazia no espelho desde pequena. Dou tudo que tenho, é uma maneira de reafirmar minha personalidade, pois não sou flor que se cheire, definitivamente (risos)”, sorri Márcia. Força, ferro, fogo por Xangô e Iansã, mas com Iemanjá para acalmar, ela define esta fase como um portal de oportunidades para sua carreira, mas também um momento de muita análise – de si e do cenário que lhe cerca.

“Tem público pra tudo. O público de 35 a 50 anos não tem pra onde ir nesta cidade, não há qualidade no que se ouve. As pessoas viraram metralhadoras giratórias, tem de fazer de tudo pra se manter, eu não quero isso. Quero me apropriar do sambareggae sempre, sei que quem me mandou vir aqui fazer música, não quer que eu pereça”, diz Márcia. Vivendo – exclusivamente – de sua arte, Márcia se intitula “resistência”. “Vivo numa terra que se olha no espelho e não se vê. A cor dessa cidade sou eu, mesmo que me negue. Quando vejo as grades e programações, se confirma que não querem que esqueçamos que a senzala ainda está aberta e que, a qualquer momento, a gente volta, se vacilarmos deixando todos se apropriarem das nossas coisas menos nós”.

14485048_10210734865473174_1118334751557009965_nEla é categórica: “a gente não se fortalece, precisamos pular da tela da rede social. A ONU precisa saber como essa terra – a cidade da música – trata os músicos”. Como Marcia mesmo definiu no início da conversa, “Corisco” é chama, é uma explosão de novas parcerias e novas portas. Que elas sigam sendo abertas por mais outros 30, 40…..

Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro realiza uma semana de atividades tradicionais


14390904_1196158483789207_4129480244251173280_nA ACANNE (Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro) realizará ) no período de 17 a 23 de outubro o encontro “Sabor do Saber Ancestral”, tendo como base sua sede na Rua do Sodré, Largo Dois de Julho, Salvador. Na programação, rodas de capoeira angola, samba de roda, caminhadas por pontos históricos, exibição de filmes, oficinas, palestras, e vivências, tendo como fio condutor a relação entre a ancestralidade, a cultura, as lutas e os valores civilizatórios de matriz africana.

Nesse ano, o evento será coordenado pelo Mestre Renê Bittencourt e terá como homenageado o Mestre Jegue, reunindo discípulos da ACANNE de diversas regiões do Brasil e do mundo. A programação especial culminará na tradicional feijoada realizada em homenagem a Ogum. A feijoada é uma festa realizada há mais de 30 anos e os presentes poderão degustar a famosa Canela, bebida oriunda do candomblé, apelidada de bebida de Iansã.

A ACANNE foi fundada em 11 de Março de 1986, na Fazenda Grande do Retiro, tem diversas sedes pelo mundo coordenadas pelo Mestre Renê Bittencourt, discípulo do Mestre Paulo dos Anjos. O grupo sempre caracterizou-se por manter atividades sociais e comunitárias, fortalecendo a identidade e a autoestima de crianças e jovens em situação de risco através da capoeira angola e da cultura popular afro-brasileira. Tem como missão preservar a memória de uma linhagem que remete aos Mestres Canjiquinha e Aberrê. Mais informações: [email protected] /  (71) 99146-5999

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Desabafo Social prepara abertura do Novembro Negro com encontros musicais, feiras e oficinas


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Dream Team do Passinho

Nos dias 01 e 02 de novembro, o Desabafo Social realizará, em Salvador, o projeto Encontros & Africanidades, evento que reunirá artistas nacionais e locais pra shows, debates e feira empreendedora. Com apoio da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia, UNFPA, UNIFACS, TV Aratu, Hotel São Salvador, UNICEF e outros parceiros, a iniciativa busca celebrar o protagonismo da juventude negra, sobretudo, mulheres negras. O projeto tem direção artística de Monique Evelle e a relações públicas Ítala Herta,

O primeiro dia de evento acontece na Praça Tereza Batista, Pelourinho, a partir das 19h com o show da rapper MC Soffia (SP), o funk carioca do Dream Team do Passinho (RJ) e abertura das djs Ovelhas Negras (BA) com o 1º lote no valor de R$ 40 (inteira) R$ 20 (meia). O segundo dia será no Candyall Guetho Square com debates, feira e mais show. Marcarão presença: Tássia Reis (SP), Juliana Ribeiro (BA) e Mel Duarte (SP). Terá  ainda oficinas, debates, feiras e oportunidades de reunir coletivos, negócios criativos e todos aqueles que se interessam pelas iniciativas da juventude negra, em especial das mulheres.

Visando o fortalecimento da iniciativa do Desabafo Social em seu trabalho com educação em direitos humanos, o valor arrecado com a venda de ingressos será revertido para o desenvolvimento dos projetos da organização durante o primeiro semestre de 2017. Ingressos aqui.

PROGRAMAÇÃO

DIA 01/11: Show com Dream Team do Passinho e MC Soffia às 19h na Praça Tereza Batista

Dia 02/11: Feira, #NaRoda com Lellezinha, MC Soffia, Tássia Reis, Mel Duarte e Juliana Ribeiro, Sarau Poético e Dj Cris Fernandes e Luma Nascimento das 10h às 19h, Candyall Guetho Square.

Quadrinista Hugo Canuto relê clássicos da Marvel e apresenta heróis como Orixás


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O artista e co-criador da Marvel, Jack Kirby, jamais imaginaria que clássicas capas de HQs tivessem, anos depois, uma releitura tão inusitada: ao invés do Capitão América, Thor, Homem de Ferro, por exemplo, divindades como Iansã, Ossain, Ogum, Xangô e Oxaguiã. Essa foi a ideia do quadrinista baiano Hugo Canuto (30), que em agosto lançou nas redes uma releitura da clássica revista The Avengers (ao lado), na qual estes Orixás estão representados. A inovação e ousadia gerou tamanha repercussão que Hugo já pensa em uma HQ, de fato, com esta criação, que ele intitula: Orixás.

Apaixonado por mitos e influenciado por Kirby, Canuto começou a desenhar aos dois anos e nunca mais parou. Autodidata, tinha sua inspiração em quadrinhos como Conan, Thor e os trabalhos do artista francês Moebius. “Em Salvador ainda falta uma boa formação nesta área, os artistas produzem de forma muito empírica pois há poucas escolas. Foi só ao final do curso de arquitetura na UFBA que entendi que era possível levar meu trabalho de forma profissional, participando dos cursos na Quanta Academia de Artes”, diz. Há dois anos, saiu de Salvador e foi para São Paulo, abandonando a estabilidade de um cargo público para seguir novos caminhos, se identificando como – segundo o mesmo – “um nômade em constante aprendizado”. Hoje atua em projetos diversos como storyboards, murais na parede, capa de livros, revistas, Dvds e Concept Art.

14527620_1375718419128610_1683885118_nHugo Canuto vem conquistando muitos likes, compartilhamentos e emoções nas redes sociais com sua nova criação, a série Orixás, resultado de dois aspectos distintos que fundamentam seus traços: a tradição e a modernidade. “De um lado, a mitologia e a história dos povos, que desde criança me influenciaram. Do outro, a cultura pop, o quadrinho e o cinema, que formaram parte do meu repertório”, explica. Até então foram apenas três artes e já há diversos pedidos para criar as demais entidades das religiões de matriz africana.  “Tendo permissão, farei, pois ainda há outros para serem homenageados, sempre respeitando suas características”, afirma.

“Como candomblecista, ao ver seu trabalho, fiquei muito feliz por ser mais um artista a se preocupar em não deixar perder a essência do Orisá. É sublime saber que no amanhã meus filhos terão em mãos um gibi em pintura de Oyá, Ogun, Sango, Osala e todo o xirê” – Rogéria da Matamba Ateliê (RJ) 

“A repercussão tem sido intensa, todos os dias recebo mensagens do público sobre representatividade a partir dos símbolos abordados, muitos deles professores, músicos, estudantes, adeptos ou não das religiões de matriz africana, mas que reconheceram nesse trabalho o quanto precisamos de diversidade na mídia”, diz o quadrinista, que não teve qualquer pretensão além de homenagear duas paixões, quadrinhos e mitologia, segundo conta.

Mas ele foi além da homenagem: ultrapassou as mil curtidas em quatro dias com a pinup de um Xangô de armadura vermelha, agitando seu machado (“Oxê”) sobre um fundo de galáxias e sois (ao lado). Para atender aos pedidos, Hugo passou a produzir a série de pôsteres com estas criações e a primeira tiragem, de 100 exemplares, esgotou em duas semanas. Segundo o quadrinista, os valores adquiridos serão revertidos a instituições ligadas à promoção da cultura afro-brasileira em Salvador. A primeira a ser contemplada será o Ilê Aiyê. E não pára por aí.

14468466_1375327445834374_4989510270861115395_oHugo Canuto começou a produzir uma série em quadrinhos inspirada na mitologia Yorubá que, segundo ele, será lançada em 2017. Agora ele é só pesquisas. Mas quem já quer saber mais sobre o artista, suas produções e planos, já pode conferir a fanpage oficial deste projeto “Contos de Òrun Àiyè”. Lá, todas as artes estarão disponíveis, além de outros itens. Para Salvador, sua terra natal, Hugo Canuto já anuncia: junto a outros artistas locais, ele vai realizar oficinas de HQs para jovens de comunidades carentes, de modo incentivá-los a criar suas próprias histórias.

“Durante a minha infância, isso não era tão frequente. Tive dezenas de bonecos de super-heróis, quase todos brancos. Minha infância não foi ruim por isso, mas é lógico que poderia ter sido melhor, me ajudaria a me conhecer melhor e me aceitar desde cedo. Não importa o que digam, é gratificante ser associado a uma coisa boa, isso fortalece a autoestima”. – Gilson Nguni, professor de História (Salvador/BA).

Importuno Poético: Jocélia, Clea, Lutigarde e muitas mulheres


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“Somos mais que três”. A definição chegou ao final da entrevista feita no sobrado iluminado pelo sol, no Carmo. A vista para a Baía de Todos os Santos foi um detalhe especial no encontro com as mulheres que fazem o Importuno Poético, três poetrizes – como se auto definem Jocélia Vândala Fonseca, Cléa Barbosa e Lutigarde Oliveira – que carregam histórias, memórias e marcas indeléveis da diversidade.

Elas são fruto de muitas culturas. Tem ciganas, negras, indígenas, sertanejas, tudo misturado para formar este grupo de poesia que já acumula 16 anos de arte de rua, singular, inovadora e, sim, de muita resistência. O nome – Importuno Poético – veio de um sonho de Lutigarde, que se uniu ao que elas aprenderam a fazer para viver da Poesia: importunar. Nas ruas, praças, eventos, lá estão elas levando aromas, balaios, figurinos, maquiagens e Poesia. São mães, filhas, empreendedoras da Cultura soteropolitana que carregam em cada uma marcas que unem o Sertão e Salvador. Vamos conhecê-las!

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Foto:CarolineMoraes

Cléa Barbosa – Clezenilde Barbosa

“Não se tem vergonha daquilo que tem dentro de você.” Assim Cléa cresceu ao lado de sua avó Renildes Barbosa, que a criou desde cedo, entre Petrolina e Juazeiro, ao som das cantigas e lamentos das Cantadeiras do Angari, ao redor da Ilha do Massangano (Petrolina). A poesia em Cléa chegou a partir daí, da poética das rezas, das orações do Terreiro. “Tudo foi compondo esta mulher que sou. Irmãs e tias de santo, minha genitora, minha avó Renilde que me criou, todas compõem esta canção que é a Clea”, ela diz.

“Somos três mulheres guerreiras que acreditam na força espiritual e artística como forças que defendem nossas existências” – Jocélia Vândala Fonseca.

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Nascida em Salvador, criada na Baixa do Cacau, bairro de São Caetano, vem de uma família de cinco filhos. Aos 15 anos conheceu os Poetas da Praça e fazia parte do Movimento Anarco-Feminista, editou quatro zines (PunKardia), que circularam no Movimento underground em Salvador.  “Trago o Sertão comigo por parte de meu pai, cresci ouvindo meus avós católicos ortodoxos sertanejos fazendo rezas a São Sebastião e na Capoeira Angola, com Mestre João Pequeno, aprendi a baixar a cabeça e rezar. No nosso trabalho, éramos filhas, mães, irmãs e criamos este triângulo amoroso de raízes religiosas do Candomblé, da Capoeira, dos índios, das ciganas, das novenas cantadas e do teatro. Uma cumplicidade que fomos ajustando no caminhar da Poesia”.

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De Belém de São Francisco, Juazeiro, Jocélia é de uma família de dez irmãos, com uma relação difícil, desestruturada psicológica e financeiramente. Sonhava com o Teatro, mas os papeis de destaque ficavam para as meninas “mais ajeitadinhas”, ela enfatiza. “Eu era preta. Foi só no Grupo Eu, Tudo, Teatro, criado pelo Centro Comunitário, que consegui ingressar nesse meio, o que ampliou minha forma de pensar. Foi onde me encontrei com a interpretação. Quando me retei com a vivência de ser mulher, fiz o poema “Devolve a costela que lhe foi emprestada”, meu primeiro poema aos 20 anos”, ela diz.

O IMPORTUNO POÉTICO

Tudo começou quando, no Campo Grande, as três resolveram “importunar” um casal, com poesia. “Nossa necessidade de “bulir” com o outro era muito mais forte, o que tornamos algo funcional para o trabalho”, explica Cléa. Restaurantes como o Quintal, Dadá, Laranjeiras, Mercado de Santa Bárbara, Quilombo Cecília, eram lugares já certos para as performances do trio. Cheiros, figurino, maquiagem, corpo, sons, essa a ritualística que marcou o processo inicial do Importuno e que até hoje as caracteriza. Donas de casa durante o dia e, à noite, elas seguiam o roteiro entre Rio Vermelho, Pelourinho…

SAMSUNG CAMERA PICTURES“Desde o final de 1999, o Importuno vem se impondo enquanto mulheres, mães, donas de si em suas mil facetas. Vamos sentindo a necessidade de nos compreender enquanto pessoas artísticas e espirituais”, diz Lutigarde. “A influência do figurino é, justamente, de tudo isso: roupas ciganas, saias rodadas dos barracões, xales, brincos, balangandãs, tudo isso somos nós”, Cléa completa. Sendo tudo isso e ainda querendo mais, o Importuno Poético está no processo gráfico do seu 2º livro.

Foto destaque: Fabiana Conde

Atriz Danielle Anatólio ensina mulheres a gerir seus próprios corpos


14224739_1748969635343233_3109649244782257136_n“Corpo a gente não esconde, ele está aí e a gente precisa entender o nosso corpo”. E foi refletindo sobre o seu próprio e como ele se constituía, valorizando-o e o conhecendo que a atriz e terapeuta reikiana soteropolitana, Danielle Anatólio reuniu 13 mulheres naprimeira vivência intitulada “Auto Gestão do corpo feminino”, realizada no início de setembro, em parceria com o Sarau da Onça, em Sussuarana.

Para participar, Danielle exigiu apenas uma coisa das participantes: disponibilização de seus corpos. Ela explica: “Tem que ter o desejo de partilhar a experiência corpórea, sua caminhada pessoal com outras pessoas. Vontade de refletir e agir sobre esse corpo, que necessita ser autônomo”, diz.  Enquanto terapeuta reikiana, Anatolio já vinha fazendo algo semelhante com outras terapeutas mas, segundo a mesma, neste formato foi a primeira vez, da qual se orgulha muito pelo aprendizado compartilhado com as mulheres.

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“Maior ensinamento que tiro desta vivência é o amor comigo mesma. Neste trabalho, quando vou escutando histórias muito semelhantes de agressões ao corpo, a gente vai percebendo o quanto precisamos de amor próprio para superarmos estas barreiras. Seja uma mulher gorda ou muito magra, ambas sofrem violências e precisamos de muita força pra dizer ESTE é meu corpo, meu peito É desta maneira, com ESTE volume e preciso respeitá-lo. Algo que muitas mulheres – especialmente as negras – não aprendem, pois somos treinadas para cuidar do outro”, enfatiza Danielle.

14183767_1748969768676553_7529666338381125177_nA vivência de autogestão corpórea proporcionada por Danielle tocou profundamente as mulheres que participaram desta primeira edição, na medida em que as ensinou que seus corpos precisam ser livres e autônomos. Dentre elas, a poetisa e fotógrafa Lane Silva (20), que se transformou com a experiência. “Maravilhoso, algo realmente único e difícil de descrever, mexeu muito comigo. Conheci mulheres fortes e que hoje são espelhos pra mim. Com a Dani pude me ver mais mulher, respeitar cada linha e detalhe do meu corpo, respeitar os sinais. Depois dessa experiência eu tenho certeza que me tornei uma outra mulher, mulher de mim” afirma.

A estudante Mariana Pereira aprendeu a lembrar do próprio corpo. “Me senti revigorada. Estive em contato com minha ancestralidade, me conectei com a energia das meninas, o que é muito importante pra nós mulheres teresse contato umas com as outras. Além do olhar maior com o meu corpo, aprendi que eu devo colocar essa natureza que existe dentro de mim pra fora, que precisamos nos conectar com nossa ancestralidade”, relata.

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Estas experiências se encontram com a vivência de Danielle, cujo relato pessoal pode ser identificado por outras tantas mulheres. “Sou uma mulher que desde adolescente, pelo corpo que tenho – um corpo grande, de uma mulher negra, está dentro do estigma da hipersexualização. Então, percorri vários caminhos para lidar com isso, desde estar no palco com um corpo grande em cena, às cantadas agressivas e violentadoras que recebia, o que me fez recuar e escondê-lo. Daí, comecei a refletir sobre meu trabalho de corpo comigo mesma, me conhecendoe aprendendo a amar esse corpo que é meu. Quando cheguei nesse ponto, precisei dividir isso com outras mulheres”, diz a atriz que uniu a prática corpórea teatral com a da Reiki Terapia para promover o “equilíbrio do corpo, da mente, da alma e do coração”.

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“A gente propõe uma coisa, mas na hora tudo é muito diferente. Vimos de uma educação ocidental que prioriza muito a cabeça e, nesta vivência, o corpo precisa ficar livre, ele vai falando, agindo de várias maneiras, sem deixar a cabeça controlar. Abrimos uma porta para dizer: Diga corpo, o que é que você quer?”

Danielle Anatólio está agora no Rio de Janeiro, fazendo Mestrado na Unirio em Artes Cênicas. Seu tema: Performance Negra. Pretende retornar a Salvador em novembro para mais vivências – inclusive a vivência de “Auto Gestão de Corpo Negro Feminino”, que será exclusivo para mulheres negras, como já adiantou ao Portal SoteroPreta. Sem dúvidas, vai bombar! Até lá, confere as lindas fotos de Lis Pedreira e procura a Dani lá no Face pra saber mais de seus projetos!

Fotos: Lis Pedreira

Cepaia inscreve para formação no Ensino de História e Cultura Afro brasileira até dia 14


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Estão abertas até o dia 14 de outubro as inscrições para o curso de extensão “Processos Educacionais e Travessias Negras: Formação para o Ensino de História e Cultura Afro brasileira”. O curso é uma iniciativa da UNEB, por meio do Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos (Cepaia), da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas (Proaf) e da Unidade Acadêmica de Educação à Distância (Unead). Interessados devem se inscrever – gratuitamente – através do site www.campusvirtual.uneb.br.

Em parceria com o Instituto Steve Biko e a Casa de Angola, serão 40 vagas destinadas a professores da Educação Básica e graduandos (as) em geral. O curso, gratuito, visa formar educadores de acordo com a Lei nº 10.639/03 e DCNs para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanas.

O curso será oferecido na modalidade semi presencial em dois módulos: de outubro a dezembro/2016 e no primeiro semestre de 2017.

Informações:

Cepaia – (71) 3241-07871

30Anos – Inaicyra Falcão fala sobre projeto Encontro Etnolírico-Destino São Paulo


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Há 30 anos, a intérprete soprano Inaicyra Falcão iniciava sua carreira musical, enaltecendo o canto lírico e dando corpo a performances singulares. Inaicyra é cantora, professora doutora, livre-docente, foi pesquisadora das tradições africano-brasileiras, na educação e nas artes performáticas no Departamento de Artes Corporais da Unicamp. Toda essa bagagem merece muita comemoração, que começou com show em Salvador no último mês e um intercâmbio artístico em São Paulo entre 12 e 18 de setembro.

Através do projeto ENCONTRO ETNOLÍRICO-DESTINO SÃO PAULO, Inaicyra esteve com o Grupo Runsó, coletivo de artistas que possui um núcleo de pesquisa e interpretação musical da cultura afro-brasileira em São Paulo.  O projeto foi contemplado no edital de Mobilidade Artística e Cultural 2016 da Secretaria de Cultura do Estado e, durante uma semana ela participou de ensaios com o grupo, uma roda de diálogos sobre canto etnolírico, além de circular com apresentações na capital paulista, em Taboão da Serra e Embu das Artes.

Foto: RenatoCândido
Foto: RenatoCândido

“Uma experiência que atingiu o objetivo principal, que foi estabelecer novos encontros e diálogos com Grupo Runsó. Foi poder compartilhar, na prática, o nosso conhecimento, ampliando trocas entre nossas pesquisas sobre cantos tradicionais, populares e técnicas de comunicação. A experiência foi um sucesso, tanto na técnica, quanto na capacidade de comunicação e interpretação dos participantes”, avalia Inaicyra.

Sobre os 30 anos de carreira, Inaicyra conclui: “O balanço da minha carreira, nesses 30 anos, é maravilhoso. Tenho uma formação eclética – professora, doutora, livre docente nas Artes da Cena que compartilho com a cantora lírica”. Confira a agenda de Inaicyra:

29/10 – Palestra no I Fórum Brasílica: a Dança Popular em Questão (SP)

3 e 9/11 – Concerto “Memórias” no Teatro Gamboa

Foto:RenatoCândido
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