A construção da afetividade da mulher descontruindo os contos de fadas – Por Val Souza


afetividade da mulher negra
“Case-se Comigo” – Fto Weder pires

Esse texto é uma tentativa de entender as molduras sociais que estruturam nossa sociedade: casamento, amor romântico, filhos, heterossexualidade. Escrever esse texto cabe a atenção em dois pontos: 1. Sublinhar a existência de mulheres negras como sujeitos e 2. Entender o quanto a colonialidade e os efeitos da branquitude ainda incidem em mim um caráter inquisitório.

Vale ressaltar que eu sou uma mulher negra e me intitular assim faz com que eu perceba que eu tenho um olhar afrocentrado sobre o mundo e acho importante afirmar isso, pois a todo tempo me interessa entender como as pessoas estão se relacionando com meu corpo negro.

Performance ‘Case-se Comigo’

Meu nome é Val Souza e desde meus oito anos percebi que há no meu corpo signos e significados que eu não conseguia explicar. Mas foi recentemente, em 2012, que eu entendi que o que me incomodava estava na diferença dos olhares e toques destinados a mim pelos homens. Talvez porque naquela época eu havia sido convidada para oito cerimônias e festas de casamento, mas nenhuma delas era das minhas amigas negras.

Depois de inúmeras vezes nesses eventos eu já sabia exatamente o script que seguiria. Em algum momento, alguma tia, amiga da minha mãe ou qualquer coisa do tipo ia me perguntar: CADÊ O NAMORADINHO? TÁ NA HORA DE CASAR NÉ? VOCÊ É TÃO BONITA! NUNCA TE VEJO COM NINGUÉM! A VERA TÁ PRECISANDO DE UNS NETINHOS SABIA?!

Isso me levou a pensar que existia algo estranho nas minhas relações e nos meus relacionamentos. Aqueles convites para as cerimônias de casamento pareciam rituais de tortura, onde eu estava ali pra escancarar a falência total nos meus relacionamentos e junto vinha também a certeza de que aquele modelo de felicidade não tinha nada a ver comigo. Por muitas vezes vi minhas amigas brancas arquitetando planos para que eu pegasse o buquê e, além disso, elas me apresentavam para qualquer homem a qualquer custo. E o ditado ‘antes só do que mal-acompanhada’ era o inverso recorrente na minha vida. Elas não entendiam que essa experiência de um amor romântico me foi tirada junto com a escravização.

A ideia de amor romântico para os negros no Brasil é recente, tendo em vista que fazem apenas 128 anos da promulgação da lei que abolia a utilização de mulheres e homens de pele preta como objetos de uso. Agora, convido vocês a imaginarem comigo os dias que se seguiram após a abolição da escravatura. A assinatura da lei de libertação dos escravizados não garantiu o fim do racismo, muito menos o fim da hegemonia branca sobre eles. Depois de anos de massacre e violências, enfim, mulheres e homens negras da pele da cor da noite estavam libertos.

Imagino que muitos deles quisessem rever seus familiares, ora suas famílias foram mutiladas, fragmentadas, espalhadas pela costa brasileira. E eu fico me perguntando, mas sob qual perspectiva pairava a suas práticas de amar e de amor dessas mulheres e homens?

O fato de cotidianamente serem testemunhas de abusos e violências, possivelmente fez com que pautassem e estabelecessem suas relações familiares espelhadas na brutalidade que conheceram na época da escravização. Bem, o que era totalmente diferente delas, né?! Casadas e felizes. Como num verdadeiro conto de fadas minhas amigas brancas tinham um planejamento certeiro e perfeito de vida: estudar, namorar, casar, ter filhos e viver um felizes para sempre, tal qual os contos de fadas que tanto escutei durante minha infância.

afetividade da mulher negra
“Case-se Comigo” – Fto Weder Pires

Mas eu – uma mulher negra -, que entendi pelo abandono do meu pai que o amor era quase uma interpretação, algo não real ou concreto, e essa dedicação amorosa não era algo dirigido a mim. Fui compreendendo que, mesmo com o fim da escravização, ainda permaneciam resquícios e efeitos da época em que as relações afetivas e familiares eram impossíveis de serem construídas.

Bem, eu, no auge dos meus 27 anos, uma mulher preta “empoderada”, bem sucedida e linda (PAUSA PARA A ADMIRAÇÃO!) frequentemente me expunha a relacionamentos abusivos. Abusivos na semântica das relações, afinal como eu, sendo essa mulher negra, não conseguia aceitar: que um homem só me ligasse de madrugada?

Só enxergasse minha vagina! Dos homens acharem que eu estava disponível. Principalmente disponível sexualmente a todo momento! Ou um relacionamento no qual eu era frequentemente traída? E quando não traída, eu era a outra, a amante às escondidas! Que nós nos víssemos apenas às segundas-feiras? Que eu pagasse nossas contas e nossas saidinhas? Ficássemos juntos sem que ninguém soubesse, afinal escondido era mais gostoso, né preta?  E eu fazia tão gostoso, mas isso nunca foi passe livre para que conhecesse sua família.

Não podia ser coincidência que, durante esses relacionamentos e – cabe aqui dizer que o que eu estou chamando aqui de relacionamentos eram relações instáveis, e eu só percebi depois disso -, encontrasse homens que me viam como um corpo objetificado ou estrutura financeira o alicerce daquelas relações. Eu percebi o quanto isso me violentava.

Esse era o jeito deles de me amar, esse foi o jeito que meu pai me amou e eles amam do jeito deles. E nós amamos pelos dois.

Ensaio ‘Álbum de Casamento’

Foi então que meus olhos, ouvidos e meu corpo todo começaram a ficar atentos. Afinal o que um homem enxerga ao ver uma mulher negra?  Percebi que ao passar na rua os homens só vêem peito e bunda. Os homens ao me olharem enxergam em mim corpo de uso e por isso pessoas como eu de cor e dor, somos sempre as últimas a terem direito sobre nossos próprios corpos.

Meu corpo era uma máquina para homem ficar aliviado. E eu comecei a sentir raiva, raiva de mim, raiva do pai, raiva do covardismo dele ao não me amar, raiva do seu abandono que me expôs a inúmeras situações de medo e tristeza, raiva dos homens que passaram na minha vida. EU SENTIA MUITA RAIVA! Mas, no meu caso, a raiva foi potência! Deu-me força e energia para entender essas poéticas que envolviam meu corpo negro feminino. Nessa busca e tentativa de me encontrar, decidi que a melhor maneira de comunicar isso era usar meu corpo, esse corpo que magnetiza  as balas da polícia, os olhares de reprovação, os toques nada sutis e perversos, as palavras de racismo, porque o meu corpo negro é linguagem.

E esses modos de existência negros na afrodiáspora brasileira dispararam em mim atos performativos artísticos que me fizeram construir os “Experimentos de Negração”, que são performances curtas onde eu questiono as molduras sociais e os lugares de padrões determinantes socialmente construídos.

Lembro-me da primeira vez que performatizei o “Case-se” (e eu estava em frente à catedral, na Praça da Sé em São Paulo, vestida de noiva, com uma máscara de branca de neve e com uma placa escrita “CASE-SE COMIGO?” Aquilo pra mim era tão óbvio, o porquê eu estava ali e vestida assim, mas eu estava com medo. Um homem havia passado por mim e dito assim: que palhaçada é essa?

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Cia Capulana de Arte Negra (SP) – Banco de Imagens

Foi quando uma mulher negra subiu as escadas chorando me abraçou e me disse: é isso ai negona! Não se preocupe o seu príncipe vai aparecer. Posso levar seu buquê pra me dar sorte?! Pra mim, essa mulher também queria se libertar de ser a mulher negra guerreira, forte que aguenta tudo. Ela só queria ser amada, mimada e acarinhada.

Eu fiquei tão assustada, afinal eu tive a certeza de que aquilo que eu estava fazendo não era apenas falar da Valdimere Pereira de Souza, filha de Vera Lucia Pereira de Souza, irmã da Valdirene e do Weder, mas ao falar da Val eu estava falando de um NÓS COLETIVO, presentificado no corpo negro feminino. E que diz respeito a uma complexa e diversa maneira de estar viva na afrodispora à brasileira. Eu entendi que não existia mulher negra no singular porque nossas histórias são como espelho onde fazemos política pelo corpo e ao contar nossas memórias umas para as outras.

Val SouzaTexto de Val Souza especial para o Portal SoteroPreta. Val é Mestranda pela Universidade Federal da Bahia no programa de pós-graduação em Dança. Artista Performer, como pesquisadora tem se debruçado nos estudos das performances de mulheres negras.