Em Quais Cabelos Nós, Mulheres Negras, Moramos?


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Marcha do Empoderamento Crespo Foto: Leo Ornelas

Primeiramente, fora Temer! Segundamente, para pensar sobre a relação entre cabelo e cultura nestas 35 linhas, vamos lembrar que os corpos nascem marcados por tecnologias discursivas e que estas são apropriadas e utilizadas para validar formas viáveis e não viáveis de sujeitos. Entre esses dois polos, opera-se uma conta – mediada pelo que vou preferir chamar de estética – que elege e pretere indivíduos. Aqui é importante percebermos duas coisas, a primeira é que nessa conta, estão inclusos diversos elementos da estética negra como nariz, boca, cor da pele, mas que destacamos o cabelo e que essa é operada num contexto historicamente marcado por uma assimetria de poder.

A organização socioeconômica do Brasil foi capaz de gerar uma estrutura marcada por desigualdades, em que a diferença gerou inferiorização, exclusão e também conseguiu empreender nos sujeitos marcados pela diferença a ilusão da possibilidade de diluição do teor estigmatizador destas. Nesse sentido, o racismo elaborou a subalternização dos nossos corpos, forjou a feiura destes, teorizou e formulou sobre incapacidades intelectuais e afetivas, ao passo que também inventou que a nós cabia a destrutiva tarefa do apagamento ou minimização das características que nos fariam sujeitos não viáveis.

Utensílios utilizados para alisar os cabelos, comummente chamados de "ferro"
Utensílios utilizados para alisar os cabelos, comummente chamados de “ferro”

O racismo elegeu para o lugar de beleza e de feminilidade os cabelos lisos e compridos, e relegou aos diversos tipos de cabelos não lisos e que raramente alcançam a performance de cobrir os ombros – hoje politicamente chamados de crespos – o lugar de feios e inadequados. Tratou de criar teorias, nomenclaturas e justificativas para validação dessa tese e ardilosamente também nos “ofereceu” a possibilidade de mudança/adequação por meio de diversos instrumentos para a modificação dos nossos cabelos.

Neste ponto, precisamos destacar que há um conteúdo naturalizador e normatizador na cultura racial do Brasil e um conteúdocoercitivo na norma.Ou seja, normatizou-se um paradigma de beleza, naturalizou-se que nele não coubesse a maior parte da nossa população e estabeleceu-se uma coerção para adequação à norma. Dessa forma, dificilmente mulheres negras moram em cabelos escolhidos, já que muitas não conhecem as possibilidades destes; nem moram em cabelos que foram suas primeiras opções, já que quase sempre os submetemos a intervenções estruturais. Não estou tratando do protagonismo sobre nossos corpos que faz parte das nossas agendas como mulheres negras, estou escrevendo sobre o que o contexto descrito acima fomenta: a negação de nosso direito de sermos inteiras, a imposição dos padrões que alimentam as dores físicas e simbólicas das negações de nossos corpos e o peso marcadamente conflitivo das nossas elaborações identitárias.

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Transição capilar da autora..

Assim, em vias de finalização desta breve reflexão que mais serve para visitarmos algumas discussões, o alisamento dos nossos cabelos aparece como parte das relações partidas que o racismo nos impõe, como se pudesse, sobre nossos corpos, inscrever dolorosamente estigmas e nos incumbir, por meio da autonegação, a diluição destes.

Naira Gomes – Antropóloga, pesquisadora e uma das articuladoras da Marcha do Empoderamento Crespo – que reuniu, em 2015, mais de 4 mil pessoas em Salvador, em defesa da estética negra no combate ao racismo.