#Opinião – “Me diz que sou ridículo, mas no fundo tu me achas bonito, lindo!” – Por Marcelo Gentil


 

Ato do Olodum em justiça por Moise

 

No início dos anos 90, dois dos principais compositores do Ilê Aiyê, Suka e Kaj Carlão compuseram a música “Ilê de Luz”, anos depois gravada por Caetano Veloso. Trata-se de uma obra que aborda a forma como a sociedade brasileira via o negro naquela época. Porém, três décadas depois, a belíssima obra continua atual. Afinal, para uma grande parcela da sociedade brasileira, o negro continua sendo visto preconceituosamente como um eterno vilão, a despeito de alguns negrólogos tentarem construir uma narrativa negacionista de que o que existe na sociedade brasileira é um “racismo reverso”.

 

No dia 24 de janeiro, o congolês Moise Kabagambe foi assassinado de forma bárbara na Barra da Tijuca – RJ por cinco homens que o amarraram e o espancaram a pauladas. Pelo que se fala, por ter ido ao quiosque no local para cobrar R$200 referente a duas diárias não pagas pelos seus serviços no estabelecimento. Coincidentemente, o congolês era um negro.

 

No dia 27 de janeiro, o cantor tenor Jean William foi abordado de forma grosseira dentro do seu carro por policiais militares, em meio a uma travessia de balsa entre as cidades de Santos e Guarujá em São Paulo, que de armas em punham queriam saber se o veículo em que ele viajava era dele e se em seu interior havia drogas. O problema, na verdade, era que William estava dirigindo um carro considerado de alto padrão. Portanto, inacessível para algumas pessoas. Mais uma vez, por mera coincidência, a vítima da abordagem era mais um negro.

 

Mais recentemente, no dia 2 de janeiro um sargento da Marinha do Brasil assassinou com três tiros em São Gonçalo, Rio de Janeiro, o seu vizinho Durval Teófilo Filho, sob a alegação de ter suspeitado que o morador do mesmo condomínio iria assaltá-lo. Em seu depoimento, o sargento declarou que “atirei para reprimir a injusta agressão iminente que acreditava que iria acontecer”. Coincidentemente, o “iminente agressor”, ou seja, a vitima, foi mais um negro.

 

Sem dúvida alguma, a música de Suka e Carlão ilustram muito bem os perrengues, as desconfianças, os preconceitos e o racismo, inclusive estrutural, dos quais os negros brasileiros são vítimas no dia a dia.

 

Foi por tudo isso que acontecia no passado e insiste em continuar ocorrendo no dia a dia, que os compositores escreveram: “Negro sempre é vilão/ até meu bem provar que não, que não/ É racismo meu não”.

 

O racismo não é reverso não e vidas negras importam.

 

Por Marcelo Gentil – vice-presidente do Olodum