#Ouro&Negro – Um resgate ascendente do Samba em Salvador, Por Camilla França


samba carnaval salvador

Em meio às discussões sobre se nasceu na Bahia ou no Rio de Janeiro, o Samba vem protagonizando a história dos dois maiores carnavais do Brasil. É impossível ter memória do carnaval carioca, sem falar da presença do ritmo nas rodas de samba ou esquinas da cidade. Aqui na Bahia, não é diferente. Desde os primeiros registros carnavalescos, o toque do samba embalou as fanfarras e as marchinhas.

Ao final do século XIX, os tradicionais clubes como Cruz Vermelha e Fantoches da Euterpe desfilavam com glamorosos carros alegóricos, reunindo a elite baiana com todo luxo da época.

Na virada do século XX, o samba se firmou como gênero musical popular dominante nos subúrbios, onde a comunidade negra promovia festas, a partir da base do samba, seja com os Cordões Carnavalescos ou com as Batucadas.

samba carnaval salvador

Também, o ritmo esteve presente nos blocos das classes operárias como Cordão das Costureiras e As Cozinheiras; nos sons das entidades afro e de índios; nas Escolas de Samba e nos dias atuais, com os blocos de Samba.

Associada a outros elementos sociais, esta presença cultural inspira a reflexão da dualidade cultural entre o espaço negro e o poder branco, inclusive, no carnaval de Salvador. E, assim como outros ritmos de matriz africana, o samba sempre foi alvo de discriminação racial. Ancorado na desvalorização da cultura do negro, marginalizado ou associado apenas a grupos de menor poder aquisitivo.

samba carnaval salvador
Foto: Rosilda Cruz

Isso porque é um som oriundo das senzalas, vindo do canto de negros escravizados; em seguida, associado aos descendentes destes, que promoviam festas nas ruas (julgadas como arruaças) e no começo do século XX, pelos negros que exerciam as funções serviçais como faxineira, cozinheira, lavadeira e postos como baianas.

O samba é uma construção e uma produção coletiva e, neste contexto histórico carnavalesco, destaca-se a forte articulação nas celebrações nos bairros populares – através das Escolas de Samba ou entre os muros dos colégios públicos.

Pautavam e demarcavam, assim, o espaço do negro na sociedade, através dos grupos culturais colegiais. Esta geração surfou na onda do processo de reafricanização do carnaval – ocorrido na década de 70 -, tornando a sonoridade do samba mais evidente através das percussões, marchinhas, blocos de índios ou travestidos.

Além disto, esta juventude negra se fortaleceu a partir das movimentações nacionais no campo da estética e da cultura negra e dava sinais da busca por melhores condições de vida.

blocos de samba em salvador
Foto: Edgar de Souza/G1

Estes fatores, concomitante com o fortalecimento financeiro das classes média e baixa, impulsionou o surgimento de entidades que abrigassem um público preterido pelas entidades de trio. Inclusive, esta foi a porta de entrada para o fortalecimento do samba no carnaval: o samba reggae, influenciado pelo samba de roda.

A essa altura já ecoado pelo grupo Gera Samba (atual É O Tchan) e o fortalecimento midiático e fonográfico do samba.

E é justamente neste nicho do mercado que as entidades de samba se fortalecem e se multiplicam, dando nome e demarcando o espaço no carnaval. Estreitam, portanto, as relações entre os blocos, artistas do Sul/Sudeste e o público de Salvador. Este elo foi essencial na missão da ruptura da monocultura do carnaval baiano, em torno da estrutura do trio elétrico e do ritmo axé music.

Isso porque, a partir dos anos 2000, identificamos um aumento significativo de entidades que se firmam como exclusivas de samba, e em sua grande parte, promovidas na quinta e sexta-feira de carnaval.

Uma política que reafirma o compromisso das entidades de apenas trabalhar e fortalecer um ritmo. Também um objeto de demonstração do empoderamento da comunidade negra, que é a maioria do público presente nestas entidades.

blocos de samba em salvador
Foto: Max Haack/Ag Haack

Esta é a lógica de fortalecimento de uma classe social que ocupa um espaço que muitas vezes lhe é negado pelos “blocos de branco”; um movimento que reforça o potencial comercial e midiático das entidades perante a hegemonia da relação entre o axé e o trio elétrico.

Este movimento ainda é tímido, mas expressa o potencial da relação com o público consumidor (embora, as empresas continuem negligenciando e discriminando as entidades negras, financeiramente). Mas ainda assim é um avanço. A história já aponta os sinais de interferências e transformações possíveis a partir do carnaval e hoje marca presença a partir das dezenas de entidades de samba na folia.

Uma presença aportada em grandes estruturas, com trios povoados, em grande parte, de atrações renomadas nacionalmente, com carro de apoio, cordeiros, segurança. Toda estrutura similar às dos maiores blocos. E, que infelizmente, ainda luta para marcar no carnaval a relevância e o potencial econômico do samba e dos sambistas, como já é feito no Rio de Janeiro.

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Camilla França – Foto Fernanda Campos

Camilla França, jornalista, mestranda em Cultura e Sociedade, com pesquisa sobre a participação de entidades negras no Carnaval de Salvador, sob orientação de Paulo Miguez . Este é o primeiro artigo da série “Carnaval de Ouro & Negro”, que o Portal SoteroPreta trará até a folia, resgatando a história negra no Carnaval soteropolitano. 

O Umbu Podcast estreia na Rádio Metrópole nesta sexta (9)


 

Estreia nesta sexta-feira (09) o Umbu na Metrópole , novo programa da emissora que promete trazer “humor, a informação e uma resenha organizada”. O Umbu é apresentado por três comunicadoras baianas, Camilla França, Mirtes Santa Rosa e Val Benvindo, que possuem em comum a habilidade, o interesse e a experiência no campo cultural baiano.

O programa é semanal e visa levar às ondas do rádio parte do conteúdo já criado e compartilhado na internet, através do Umbu Podcast – projeto também produzido e estrelado pelas três.

Na rádio Metrópole, toda semana, o Umbu vai pautar diferentes temas relacionados aos acontecimentos, a cultura e a história da Bahia.

O programa acontece semanalmente, na Rádio Metrópole, no 101,3, além de ser transmitido no youtube da emissora @grupometropole. Esta e todas informações do projeto estão disponíveis no www.umbupodcast.com.br.

 

Quem são as pretas?

Na foto (esq-dir)

Val Benvindo – jornalista e produtora executiva de projetos culturais

Mirtes Santa Rosa – publicitária e especialista em Comunicação e Gerenciamento de Marcas

Camilla França – jornalista e Mestra em Cultura e Sociedade

Portal lança Programa Soteropreta de Jornalismo em parceria com a UNIME em Salvador!


O Portal Soteropreta dá mais um passo pra ampliar seu alcance em Salvador. Será lançado, no dia 5 de setembro (quarta-feira) o Programa Soteropreta de Jornalismo, em parceria com a Faculdade UNIME, por meio do Curso de Jornalismo. O primeiro Portal de Notícias exclusivo sobre Cultura Negra em Salvador abrirá sua redação pra estudantes de Jornalismo que queiram produzir conteúdo para o veículo em suas diversas categorias: Dança, Música, Audiovisual, Teatro, Religião, Gastronomia, Literatura, dentre outras – todas tematizando a Cultura Negra.

A atividade será às 19h, no Campus I da UNIME, na Paralela, e será aberta ao público. Na ocasião, o Portal Soteropreta será apresentado por sua criadora e editora-chefa, a jornalista Jamile Menezes, além da participação da Mestra em Cultura e Sociedade, a jornalista e editora do Portal, Camilla França. Para ampliar o debate sobre empreendedorismo negro, em especial na Comunicação, a atividade também terá a presença da Mestranda em Cultura e Sociedade, a jornalista e criadora do site Lista Negra, Midiã Noelle. No debate, o tema “Por uma Comunicação Negra: quais caminhos?”

O Programa Soteropreta de Jornalismo (PSJ) consistirá na seleção de 10 estudantes de Jornalismo – negros e não negros – que tenham interesse na Cultura Negra, para produção de conteúdos multimídia sobre o tema. “Nosso intuito é proporcionar a estes estudantes a oportunidade de treinar seus conhecimentos e ensinamentos em sala de aula, aproximá-los, e a instituição educacional parceira, da temática social e racial”, diz Jamile Menezes.

De forma experimental, o PSJ começa a partir do mês de setembro para alunos a partir do 4º semestre de Jornalismo da UNIME, que produzirão conteúdos até dezembro de 2018. Neste período haverá reuniões de pauta, acompanhamento das produções e edição das mesmas para posterior veiculação no Portal.  O Programa terá outras edições em 2019.

Quer sugerir pautas para este programa?

Envie para [email protected]

SERVIÇO:

O que: Lançamento do Programa Soteropreta de Jornalismo

Onde: UNIME, Campus I – Paralela (ao lado da SERPRO/Odebrecht – sentido Centro)

Quando: 5 de setembro (quarta-feira), 19h

Aberto ao público, sujeito à lotação do espaço.

Portal Soteropreta lança web-programa “Circuito Negro” e pauta a negritude do Carnaval!


 

 

Primeiro PPortalde Notícias voltado para a produção cultural negra de Salvador, o Portal SoteroPreta veiculará, entre os meses de janeiro e fevereiro, o programa “Circuito Negro”, sobre 10 agremiações carnavalescas de matriz africana da Bahia.

Serão programas sobre Blocos Afros, Afoxés, de Samba e de Reggae, todos apoiados pelo programa Ouro Negro, do Governo do Estado da Bahia.

Em 2018, o Ouro Negro completa 10 anos, já tendo revertido mais de R$50 milhões para estes Blocos – para além do investimento financeiro direto, uma ação de preservação de um patrimônio cultural, social e identitário. Ao longo deste período, foram mais de 200 agremiações contempladas.

Com apoio do Governo do Estado, o web-programa Circuito Negro pretende tocar a subjetividade daqueles que fazem o Ouro Negro acontecer nas ruas, em um reconhecimento de suas falas enquanto indivíduos negros e negras, com histórias de vida também tocadas por estas agremiações e pelo investimento do Estado.

“Não se pode falar em Carnaval na Bahia sem a presença destas agremiações que – com sua estética, participação e sonoridade peculiares, reforçam o que a Bahia produziu enquanto capital de resistência de várias comunidades, e que hoje fundamentam a beleza particular do carnaval”, diz a editora chefa do portal e idealizadora do programa “Circuito Negro”, Jamile Menezes.

Criado em outubro de 2016, o Portal já se consolida, em meio às mídias negras independentes do estado, como veículo sério, referenciado e respeitado. Com o Circuito Negro, o público conhecerá histórias por trás de cada folião – que atestam o sucesso político, social e cultural do projeto Ouro Negro.

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Cortejo Afro – Fto Paulo Lima

Relatos de famílias inteiras dedicadas a um Bloco, paixões manifestadas de formas curiosas, situações irreverentes ligadas a estas relações dos foliões com seus blocos de coração, a religiosidade e a cultura negra. Esta será a linha condutora deste projeto, que estará lastreado pela necessidade de se manter esta tradição viva – por meio de todo apoio possível.

Os 10 programas trarão ao público histórias dos Afoxés Filhos de Korin Efan e Filhos do Congo, dos Afros Ilê Aiyê, Bankoma, Didá e Cortejo Afro; dos blocos de Samba Alvorada e Amor & Paixão e os de Reggae, Aspiral do Reggae e Reggae o Bloco.

“São estas as histórias que precisam ser ouvidas para além do viés institucionalizado, para que um número cada vez maior de pessoas – em especial a juventude – se sensibilize e mobilize em torno de uma tradição carnavalesca do nosso estado e do país”, diz a  jornalista, Mestra em Cultura e Sociedade (Ufba), Camilla França, pesquisadora da temática e consultora do programa Circuito Negro. 

Equipe

O programa Circuito Negro será veiculado, aqui no Portal, e também poderá ser visto no Youtube e no Facebook do Portal Soteropreta.

Tem direção das cineastas premiadas e diretoras da Estandarte Produções, Jamile Coelho e Cíntia Souza, produção da atriz e produtora cultural, Taimara Liz  e apresentação da jornalista, Fabiana Mascarenhas.

O programa trará ainda a participação especial de jovens poetas das periferias de Salvador, com sua Poesia Marginal: Rool Cerqueira, Kuma França e Vanessa Coelho, do Coletivo Zeferinas, Evanilson Alves, Líslia Ludmila, Maiara Bonfim e Pedro Zaki e tem o apoio de [email protected] negros e negras de Salvador. Estão no time: as grifes a N Black, Tabompravoce Diva Katuka Africanidades, Casa de Angola na Bahia. Negrif, além dos maquiadores Mario Farias, Make by Dan e Karoline Lima! O restaurante Midispache Gastronomia, o Velho Espanha Bar e Cultura, a Pizzará Bahia , a Pretart’s, e o Destino Gourmet Food Truck!

 

Foto destaque: Rosilda Cruz (Ilê Aiyê)

 

 

Quem produz samba são elas!!!


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Quinta Do Samba Do Cajueiro – Boca Do Rio.

Kelly Adriano de Oliveira, em sua tese “Deslocamentos Entre o Samba e a Fé”, afirma que as mulheres tiveram um papel importante na preservação e resistência do samba. Pensar seu papel na preservação dos diversos legados negros é reafirmar o protagonismo e visibilizar a importância do empoderamento feminino, que revela sua força em diversos contextos, e em especial no samba.

Estamos falando da construção de novas narrativas, onde elas reivindicam não somente seu protagonismo, mas a participação para além da exposição do corpo, e em uma dimensão bem maior e mais profunda. Para muitas mulheres esse tema pode parecer algo natural, mas nem sempre foi assim. Se pensarmos que o samba naturaliza a presença masculina, enquanto invisibiliza a produção das mulheres, valorizar a figura feminina em um universo musical dominado pelos homens é um momento ímpar a ser comemorado.

Ao falar de “Uma Alvorada para as Mulheres” sua força e protagonismo cultural, o Bloco Alvorada nos convidou a pensar a contribuição destas na produção cultural fora do carnaval, sem a sexualidade que objetifica seu corpo nos espaços de samba. Esse tema mostrou o que vem sendo notado nas rodas de samba em Salvador, o cavaquinho, pandeiro e microfone brilhando nas mãos de realezas como Gal do Beco, Josiane Clímaco, Juliana Ribeiro e Rita Nolasco.

Sem deixar de lembrar mulheres como Camilla França, Carmen do Q’ Felicidade, Dorinha da Feira de São Joaquim – mulheres que vem desnaturalizando o protagonismo masculino nesses espaços. Elas vem mostrando que o samba não é só um gênero musical, mas uma cultura de resistência, visibilidade musical e participação feminina.

samba de mulheres

Ao desfilar pelas rodas de samba, elas mostram que o verdadeiro samba, além de valorizar a tradição, tem que garantir a contação da história de mulheres que foram detentoras da sua resistência. Por isso, ao estarem nestes espaços, elas quebram com o anonimato e mostram que o samba é sim assunto de mulher.

“Uma Alvorada para as mulheres” não conta somente um enredo feminino. Ele questiona as realidades, ameniza dores e festeja alegrias que contrariam as mazelas cotidianas que oprimem a população negra. Por isso, parafraseando a música “Maravilhosa é ela”: Quem tá no samba são elas!!!

 

Luciane ReisLuciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

Afoxés: Por diferentes pontos de vista, os primeiros passos!


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Foto Fafá Araújo

Falar sobre a presença do Afoxé no carnaval é pensar sobre a relação entre os toques de matriz africana e a sociedade de Salvador. É entender a expressão musical a partir das cantigas e instrumentos das religiões de matriz africana, orientados pela fé e pelo culto. E compreender estas entidades carnavalescas como extensões dos Terreiros que levam ao carnaval, suas cores, letras, crenças e promovendo um verdadeiro “candomblé de rua”.

Do ponto de vista carnavalesco, o Afoxé é uma manifestação derivada do ijexá – toque nagô/iorubá presente em parte significativa dos candomblés da Bahia e produzida a partir dos sons dos atabaques, agogôs e xequerês. Do ponto de vista etimológico, dos vários entendimentos, seguiremos o professor Antônio Godi que apresenta o “Afoxé”, a partir da fusão de expressões de origem nagô e sendo, (sopro) e axé (poder de realização).

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Embaixada Africana – Banco de Imagens

Já pelo olhar histórico e carnavalesco, posso sintetizar com o pioneirismo de duas entidades que se adequaram aos padrões do período, conservando valores e tradições negras.

Elas consolidaram-se enquanto as primeiras entidades carnavalescas negras (os clubes negros) que desenvolveram visibilidade na história do carnaval.

Primeiramente, o Embaixada Africana que, surgido em 1885, foi considerado por Nina Rodrigues como ‘negro de alma branca’ e ficou conhecido por um manifesto, no qual questionava ao governo brasileiro indenização pelos africanos castigados na Revolta do Malês.

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Mercadores de Bagdá – Banco de Imagens

E o clube “Os Pândegos da África” nascido no ano seguinte, que desfilou com alegorias e carros, levando negros às ruas vestidos de reis, gurus e feiticeiros africanos, cantando em iorubá.

Estas entidades fizeram das ruas um espaço de contestação, indicando que carnaval não seria espaço exclusivo “dos brancos”. E não estavam sozinhas. Seus caminhos deixaram o legado para o surgimento de outras entidades, como “Nagôs em Folia”, “Lembranças da África”, “Mercadores de Bagdá”, “Cavalheiros de Bagdá”, “Filhos de Obá”, “Filhos de Odé”, “Chegada Africana” e “Ideal Africano”.

Os primeiros toques dos Afoxés no carnaval foram os primeiros passos da sociedade no combate à intolerância religiosa, ocupando as ruas e reverenciando a herança religiosa.

Com roupas de candomblé, cantigas de candomblé, ‘ginga’ de candomblé e é claro, a fé no candomblé, o desfile de um Afoxé – muito mais do que integrar o carnaval – levava e ainda leva o interesse de uma entidade, de uma casa ou de uma liderança em ocupar a rua e reverenciar sua religião publicamente. Isso é enfrentamento. Isso é empoderamento da cultura afro. Isso é reparação!

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Korin Efan – Banco de Imagens

Sabemos que as maiores transformações negras foram construídas através do campo cultural e o entendimento da religião não foi diferente.

Se hoje falamos de orixás, inquisses e voduns, usamos contreguns, contas e saudamos publicamente às divindades, parte do espaço foi aberto pelas entidades de afoxé, que levam o xirê ao Carnaval de Salvador.

Estas entidades permitiram o começo de uma longa caminhada dos filhos, filhas, mães, pais e irmãos do candomblé na luta contra a criminalização da religião e o ódio contra a mesma. E são estes os foliões que todos os anos levam dezenas de entidades e suas reverências ao carnaval de Salvador, principalmente no circuito Batatinha.

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Filhos de Gandhy – Arquivo Roosewelt Pinheiro

O desfile das entidades de afoxé é – portanto – um objeto concreto de enfrentamento e combate ao racismo. E não é pretensioso afirmar que: falar da presença dos afoxés no carnaval de Salvador também é falar de umas das primeiras formas de resistência negra na Bahia.

camilla-francaCamilla França, jornalista, mestranda em Cultura e Sociedade, com pesquisa sobre a participação de entidades negras no Carnaval de Salvador, sob orientação de Paulo Miguez . Este é o segundo artigo da série “Carnaval de Ouro & Negro”, que o Portal SoteroPreta trará até a folia, resgatando a história negra no Carnaval soteropolitano. 

Espetáculo FAIYA terá Sexta do Branco, com Madá Negrif, no Vila Velha


negriffestivalacenatapretaSeduzir o público e despertar o interesse sobre elementos da cultura da África presentes na cultura baiana. A sedução ficará por conta das beldades que desfilarão no palco do Teatro Vila Velha nesta sexta (18), a partir das 19h. Estamos falando do espetáculo “FAIYA”, concebido e dirigido pelo ator Jorge Washington, que vai seduzir ainda mais com literatura e música.

A Negrif é assinada pela estilista Madalena Bispo, mais conhecida como Madá Negrif, que é designer e caracteriza sua moda afro pelas roupas mais amplas, coloridas, peças que se identificam com as ruas de Salvador. Mas não somente.

Quem vai à sua loja, na Avenida Carlos Gomes, Centro de Salvador, sabe que lá encontrará: exclusividade, tamanhos especiais, identidade e muita sofisticação. Sim, a Moda Afro da Nefrif é isso.

As clientes da Negrif serão representadas por 16 de suas clientes: Barbara Portugal, Camilla França, Cláudia Matos, Denise Correia, Dôra Carvalho, Gabriela Ramos, Indira Nascimento, Karine Santana, Jamile Menezes (editora do Portal SoteroPreta, parceiro do evento), Jucy Silva
Lais Freire, Lio Borges, Nadja Gomes, Regina Bonfim e Renata Dias. O tema da noite será a paz, com roupas brancas. Será a Sexta do Branco, evento que a Negrif realiza para divulgar sua coleção nesta cor.

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“Coroar 16 mulheres no mês da Consciência Negra, no Vila Velha, primeiro local onde trabalhei, onde tive mais força pra descobrir esta potência; onde pude iniciar com artistas que aceitaram a proposta de fazer algo diferente, é uma celebração única. É um orgulho e honra ter ao meu lado mulheres amigas que desfilarão uma coleção diferente, inovadora, criada no perfil de cada uma exatamente no lugar que comecei” – Madá Negrif

Para o idealizador de “FAIYA”, Jorge Washington, o desfile da Negrif se integra ao conceito macro de todo Festival A Cena Tá Preta. “A ideia do Festival é fazer um panorama da Performance Negra como um todo. O convite à Negrif veio no sentido de fortaceler esse olhar pra Moda Afro como um elemento de fortalecimento da Cultura Negra”, enfatiza.

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A noite será também de performance da atriz Valdineia Soriano, de literatura e poesia negras com a ativista Vilma Reis e a escritora e poeta, poeta Lívia Natália. A outra convidada da noite é de New Orleans, a cantora norte americana Michaela Harrison que vai apresentar um conjunto de ritmos negros do jazz, soul e blues com os músicos Dão Anderson e Maurício Lorenço.

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Será uma noite de releitura de clássicos de compositores negros, além de composições autorais repletas de influências da cultura africana. “Podemos dizer que estas canções compartilharão a sensação da resistência de nossos ancestrais”, comenta Jorge Washington. O nome do espetáculo?

Uma homenagem ao ritual iorubano “Antigos iorubanos, quando queriam encantar e seduzir os presentes, em suas rodas de danças e cantigas emitiam sons imprimindo o sentimento de felicidade. Esse som era o Faiya”, explica. Imperdível!

Fotos: Banco de Imagens

Balada Literária terá formato digital e homenageia a escritora Geni Guimarães!


Geni Guimarães Foto: ItaúSocial – Camilla Kinker

 

Realizada anualmente desde 2006, a Balada Literária chega à 15ª edição com um novo formato, totalmente online, mas mantendo a data prevista, de 3 a 7 de setembro,  no site www.baladaliteraria.com.br. Este ano, a festa homenageia a escritora paulista Geni Guimarães e traz nomes como Conceição Evaristo (amiga da homenageada), Mestre Jorjão Bafafé, Douglas Machado, Sidney Santiago Kuanza, Miriam Alves, Gabi da Pele Preta, Esmeralda Ribeiro, Landê Onawale, Luz Ribeiro, Cátia de França, Ricardo Aleixo, Daniel Munduruku e Eliane Potiguara. Em Salvador, o homenageado é o escritor e músico Juraci Tavares.

O evento contará com aulas, conversas, shows, exibição de filmes e saraus unindo autores brasileiros a africanos. Para finalizar cada dia, um encontro no Zoom aproximará participantes e público na Balada da Balada, com leituras e temáticas pré-definidas, a exemplo do Sarau Transversal, de temática LGBTQI+, já tradicional na festa. A abertura, dia 3, às 19h, será com show da pernambucana Gabi da Pele Preta, exibição do documentário Geni Guimarães, dirigido por Day Rodrigues, e mesa com a diretora, a homenageada, Conceição Evaristo e a bibliotecária Bel Santos Mayer.

Geni Guimarães é autora de 10 livros de poemas, contos e infantis, recebeu prêmio Jabuti por A Cor da Ternura. Nasceu em 1947 e é ativista em causas sociais e identitárias desde o início dos anos 1980. Numa época em que não se colocavam tais assuntos como responsabilidade de todos, debateu literatura negra, feminismo e construiu sua obra como forma de libertação em busca de deixar uma voz que ainda hoje é pouco ouvida. Na Balada do ano passado, Valter Hugo Mãe conheceu a escritora, ficou impressionado e publicou um artigo longo sobre o seu trabalho em Lisboa, e quer agora publicá-la em Portugal.

 

Balada baiana 

Em sua sexta edição, a Balada Literária da Bahia homenageia o poeta, cantor e compositor Juraci Tavares, 70 anos, nome de destaque da produção cultural afro-baiana. Juraci terá sua trajetória destacada em um documentário assinado por Ricardo Soares, produzido para o evento, e numa conversa com a cantora Fabiana Cozza, sábado (dia 5), às 18h.

Será a oportunidade de ouvir Juraci falar de sua poesia, registrada no livro Vocábulos Caminhantes e no disco Umbilical e também nas muitas canções que compôs para os blocos Ilê Aiyê, Filhos de Gandhy, Malê Debalê e Cortejo Afro, entre outros.  “Juraci é uma dessas pessoas que eu chamo de mestre. Apesar de aposentado como professor, criou o Espaço de Humanidades Ossos 21, onde continua, de maneira voluntária, preparando alunos de baixa renda para ingresso no ensino técnico e superior. Como músico e poeta, é um legítimo representante da negritude brasileira. Gosto de dizer que seus poemas e canções também no educam para a percepção crítica do mundo, porém sem abdicarem da beleza, que lhe é fundamental. Poder homenageá-lo na Balada Literária 2020, ao lado da escritora Geni Guimarães, me dá uma alegria extra. Mais do que nunca, o Brasil humano e solidário precisa de artistas do porte desses mestres incríveis”, afirma Nelson Maca, curador da Balada baiana.

Juraci Tavares
Juraci Tavares – Foto André Frtuôso

Na sequência, o evento dialoga com a obra de Juraci através da história de outro mestre da cultura afro-baiana: o percussionista Jorjão Bafafé, um dos criadores do afoxé Badauê e do bloco afro Okanbí. Jorjão conversa na Terreiro de Jagun, barracão de candomblé instalado por sua avó, onde ainda mora sua família, no bairro do Engenho Velho de Brotas. Quem dialoga com o mestre é a cantora Mariella Santiago e o gestor cultural Chicco Assis.

A presença baiana acontece também com um sarau apresentado por Nelson Maca na abertura (às 22h), que une Bahia e África, com as presenças de Anajara Tavares, Jef (O Quadro), Ras Tardas (Moçambique) e Okwei Odili (Nigéria); com uma aula sobre literatura negra baiana do professor Sílvio Roberto Oliveira (dia 4, às 10h) e com a presença do filme O Caso do Homem Errado, da cineasta Camila de Moraes, gaúcha radicada em Salvador, que está disponível no site do evento. Salvador conta ainda com as participações das poetas Jocélia Fonseca e Lívia Natália, além de Landê Onawale. Os três participarão de diferentes mesas sobre literatura com nomes essenciais dos cadernos negros e da nova produção literária feminina e negra.

A Balada Literária conta com os apoios do Itaú Social, Instituto Vagalume, Biblioteca Mário de Andrade, Centro Cultural b_arco, Livraria da Vila e Navega. Toda a programação, que ficará disponível no site, é gratuita.

XV BALADA LITERÁRIA 2020 UM ABRAÇO SOLIDÁRIO

Quando:  3 a 7 de setembro, no site www.baladaliteraria.com.br