#OpiniãoPreta – X, deixe de vitimismo!


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X acordou neste dia e sequer agradeceu. Teve tempo de banhar-se tranquilamente, cantarolar, assistir ao jornal em sua TV de plasma, indignar-se com mais uma notícia favorável ao Bolsa Família e se isentar de emoção com o novo aumento do gás. Afinal, X nunca comprou gás, X não cozinha, outras pessoas fazem isso.

X entrou em seu carro do ano sem se despedir da reduzida família que ficou à farta mesa do café da manhã de todos os dias. Eles não têm pressa, são chefes, apenas controlam o que outras pessoas estão fazendo. Então, podem viajar mais tarde, dar um pulo em outro estado e voltar no mesmo dia. Outras pessoas providenciam isso com rapidez.

X sempre estudou em escolas onde a média era 7, os professores eram “TOP”, “gladiadores da aprovação” e seus colegas de todas as classes sempre foram como X. Mesmo perfil, mesma história, mesma realidade.

Se encontram neste final de semana na mais TOP balada da cidade, seus gastos conjuntos ultrapassam um “mínimo” e a noite está só começando. X flerta, gasta, ri, gasta, dança, gasta…Aliás, X nunca sabe bem quanto já gastou, gasta ou pode gastar. Outras pessoas dão conta disso.

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Mas quando X volta para casa, sob todos os efeitos da balada top, em companhia dos seus iguais, há uma blitz que para o carro à sua frente conduzido por jovens como X, vindo de outra balada. X passa, mas o outro carro não: jovens como X, só que tinham na pele a cor daquela mesma noite.

Então, conclui: “só podem ter roubado”. X segue com alívio, afinal, teria muito o que explicar antes que tudo fosse rapidamente pago, resolvido. Até porque, outras pessoas que resolveriam isso, não X.

racismoDia de aula. X segue para a faculdade, onde estuda e passou sem cotas. Afinal, X não se enquadra neste perfil e não precisou. Tem pele branca, parece protagonista de todas as telenovelas ou propagandas de que já ouviu falar ou assistiu. Parece com todos que já viu e todo dia vê nas posições de poder.

X tem renda acima de 20 salários mínimos, está na Classe “A”, mora bem e nunca fez a cama onde dorme. Aliás, X não sabe bem como funciona seu lar, pois outras pessoas dão conta disso.

Tema da aula: racismo. X não gosta deste tema, acha uma bobagem sem tamanho esse vitimismo. Opa!? Sim, para X não passa de vitimismo, afinal “quem quer ser alguém na vida basta batalhar para isso, parar de reclamar”.

X acredita que para se educar, basta querer, estudar muito e não faltar aula por “qualquer coisa”. É preciso esforço, vontade e que as oportunidades estão aí para todos, que “à sua semelhança”, querem sucesso na vida .”

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Naquela aula, X olhou ao redor e viu apenas 2 iguais. A cor da noite estava à frente de novo, aliás, por todos os lados. Falou o que achava e recebeu toda chuva de argumentos contrários, perguntas sobre quais privações já teve em sua vida. Recebeu olhares tensos.

Questionaram quantas abordagens desconfiaram de sua índole. Quantos nãos já recebeu por ter a pele da cor do dia. Quantas vagas disputou para sustentar o ótimo ensino que desfrutara.

Quantas piadas com seu cabelo, nariz, roupas, boca…com sua cor de pele, com sua família ou antepassado, já tinha ouvido na vida? E quantas vezes teve que ser 10 vezes melhor que alguém para conseguir algo só por refletir a cor da noite por todo o corpo? Quantas comparações a animais, escravos, inúteis, imbecis já haviam lhe feito? Quantos…quantas…quantos, X? Quantos?

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X chorou, não aguentou. Clamou-se vítima de assédio, hostilidade, disse que isso sim era racismo, só que ao contrário. Que ali estava em minoria e que não tinha como melhor se defender. X alegou desigualdade naquele momento.

Não havia oportunidades iguais de defesa, era uma opressão tudo aquilo. Queria morrer ali, acabar com a vergonha e humilhação por ser “diferente”.

Saiu da sala, da faculdade e, desta vez, pediu para alguém ir lhe pegar e levar para casa. Afinal, outras pessoas havia em seu oprimido mundo que pudessem aliviar sua dor.

Moral da história….X, deixe de vitimismo!

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Fotos de Lorena Monique, estudante de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB) que, inspirada na campanha organizada por alunos negros e negras em Harvard (EUA), fotografou estudantes no campus segurando cartazes com frases que já ouviram.

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Jamile Menezes é Jornalista, Assessora de Comunicação e Imprensa, diretora da Ayo Comunicação e editora chefe do Portal SoteroPreta.