AfroEmpreendedorismo
Especialista apresenta oportunidades para afroempreendedores
Em contraste com o cenário de subsistência que ainda marca parte dos negócios liderados por pessoas negras, a fundadora da Afrocentrados Conceito, Cynthia Paixão, apresenta o primeiro hub digital de impacto e inovação afro do estado.
O aquecimento da economia criativa no mês de fevereiro, atribuído ao fenômeno do Carnaval, encontra um terreno fértil na Bahia. A categoria, que vem historicamente de uma expansão recorde nos vínculos empregatícios criados na área da ‘Cultura’ (8,8%), segundo a Firjan, trouxe “ventos otimistas” para os empreendedores, que se viram distantes do cenário nacional de retração, avaliado em -7,2%.
Os dados foram registrados no “Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil” (2022), com os estados da Bahia e Alagoas (0,8%) como as únicas federações à variar positivamente, ainda no triênio de pré-pandemia. O relatório também mostrou uma expansão da área criativa na Bahia, com uma média de 18,9%. Vindo embalada, o novo relatório (2025) da Firjan revelou que o estado segue na 5ª posição com relação a participação dos profissionais de Cultura na indústria criativa.
“O estudo mostra uma Bahia rica em criatividade, mas muita coisa mudou desde 2017. Embora a indústria gere bilhões em receita, o retorno para o empreendedor, especialmente o afrodescendente, ainda é fraco, o que contribui para o cenário de subsistência. Esse produtor é contabilizado em números, mas segue pouco assistido e sem formação para escalar sua influência. O que deveria empoderar a cena criativa, principalmente com a riqueza cultural da comunidade negra, tornou-se um cenário de ‘vulnerabilidade invisível’, onde as estatísticas mascaram a falta de suporte real para transformar talento em autonomia financeira”, contrapõe Cynthia Paixão, CEO e fundadora da startup ‘Afrocentrados Conceito’.
À frente da Afrocentrados, startup que movimenta mais de meio milhão de reais, com cultura autoral e economia criativa em Salvador, Cynthia explica que a antiga loja colaborativa vem com uma nova proposta de ser o hub de negócios de impacto e inovação afro, aproveitando o mercado aquecido para elevar o empreendedorismo negro para além das estatísticas. “Queremos aproveitar o período aquecido de pré e pós-Carnaval para impulsionar essas marcas, de modo que o retorno seja benéfico para a escalada dos negócios e da comunidade afroempreendedora de Salvador. É uma das formas que encontramos de empoderar os negócios e verdadeiramente pertencer à essa expansão da Indústria Criativa na Bahia”, comenta.
Com uma trajetória de 5 anos dedicados ao fortalecimento de marcas autorais, a afroempreendedora destaca que a jornada é trilhada de forma independente. Sem o suporte de editais governamentais ou aportes de instituições privadas, Cynthia conta que a Afrocentrados sobreviveu e cresceu através do autofinanciamento e da rede de apoio mútuo entre mulheres e os próprios criativos.
“São anos construindo pontes no braço, sem auxílio externo, que torna cada avanço um marco de resistência. Entendemos que o ‘afroempreendedor’ requer a formação para escalar, suporte tecnológico e uma rede que gere impacto real em suas contas. A indústria criativa atrai excelentes profissionais, mas que se perdem no meio do caminho ou fecham às portas por não verem seus negócios escalando, mesmo diante do crescimento do cenário, seja ele local, nacional ou mundial. E a Bahia é a prova de que o cenário já trouxe bons resultados. Para que essa estatística seja ainda mais real em nosso meio, decidimos sair do modelo de ‘vitrine’ para um modelo ainda mais eficiente, de aceleração de negócios na capital”, conta a CEO.
A postura autônoma ganhou contornos de inovação tecnológica ao conectar a Bahia ao fluxo global da economia criativa que, segundo a UNESCO, movimenta US$ 2,25 bilhões anuais. À fim de romper as barreiras geográficas que muitas vezes limitam o pequeno produtor negro, a Afrocentrados se prepara lançar o primeiro e-commerce do estado exclusivo para marcas negras: a ‘Afrocentrados Hub’.
“A ‘Afrocentrados Hub’ nasce para corrigir uma distorção histórica da economia criativa: a de que o talento negro sustenta estatísticas, mas não acessa escala. Criatividade sem estrutura vira sobrevivência. Nosso objetivo é profissionalizar, acelerar e conectar marcas negras a um mercado real, usando tecnologia, formação e rede como ferramentas de autonomia financeira”, explica.
Desenvolvido em parceria com a plataforma WBuy, a ferramenta está em fase de adesão, permitindo que a estética, criatividade e a identidade baiana alcancem consumidores em qualquer lugar do mundo. A nova fase aposta na integração phygital (físico + digital) como pilar de sustentabilidade do negócio, unindo o espaço virtual à tradicional loja física, localizado no piso L2 do Shopping Bela Vista – que chega com uma estrutura reforçada no atendimento, gerência e coordenação.
Nesse cenário, a Afrocentrados Hub se consolida como marketplace voltado para o incentivo de marcas negras, reunindo empreendimentos autorais e ampliando sua atuação com a chegada de mais três novas marcas à plataforma.
A iniciativa atua como um canal estruturado de multicomercialização e visibilidade, conectando empreendedores negros a um mercado amplo e qualificado dentro da indústria criativa.
“Os números mostram crescimento, mas crescimento sem equidade não é desenvolvimento. A Bahia pulsa criatividade negra, movimenta a economia e sustenta estatísticas positivas, mas ainda falha em transformar esse potencial em autonomia financeira para quem está na base da cadeia. A Afrocentrados e o nosso Hub nasce justamente para romper esse ciclo: sair da sobrevivência para a escala. Nosso compromisso é transformar talento em negócios sustentáveis e ‘cultura’, que não para de escalar profissionalmente na Bahia, em oportunidade para a comunidade afrobrasileira”, conclui Cynthia.
AfroEmpreendedorismo
Tamires Santos destaca afroempreendedorismo no Julho das Pretas
O Julho das Pretas, mês dedicado à valorização da luta, da história e das contribuições das mulheres negras, também amplia o debate sobre o protagonismo feminino no empreendedorismo. Embora o número de mulheres à frente de negócios continue crescendo no Brasil, mulheres negras ainda enfrentam barreiras relacionadas ao acesso a crédito, qualificação, redes de relacionamento e oportunidades de crescimento, tornando o fortalecimento coletivo uma estratégia fundamental para a permanência e a sustentabilidade de seus empreendimentos.
Para Tamires Santos, palestrante, empreendedora, escritora, gestora pública, psicoterapeuta e especialista em Empreendedorismo e Desenvolvimento Humano, reconhecer o protagonismo das mulheres negras no empreendedorismo significa ir além dos indicadores econômicos. É preciso compreender que essas mulheres movimentam economias locais, geram renda, preservam saberes ancestrais e fortalecem comunidades, muitas vezes enfrentando jornadas marcadas por desigualdades estruturais e sobrecarga.
“Nós ainda falamos muito sobre abrir negócios e pouco sobre criar condições para que mulheres negras permaneçam empreendendo. Permanência exige acesso a conhecimento, rede de apoio, saúde emocional e oportunidades reais de crescimento. Empreender não deve ser um caminho solitário”, afirma Tamires.
Essa visão deu origem ao movimento “Uma vai e puxa outra”, iniciativa gratuita criada para fortalecer mulheres negras empreendedoras por meio de encontros que unem acolhimento emocional, desenvolvimento estratégico, trocas de experiências, acesso ao lazer, valorização da cultura e construção de redes de apoio. O movimento parte da compreensão de que negócios sustentáveis também dependem do fortalecimento de quem os conduz.
A proposta rompe com a lógica individualista frequentemente associada ao empreendedorismo e aposta na construção coletiva como ferramenta de transformação social. Ao compartilhar experiências, desafios e soluções, as participantes ampliam suas possibilidades de crescimento e fortalecem vínculos capazes de impulsionar novas oportunidades de negócios e desenvolvimento profissional.
Para Tamires, o Julho das Pretas é uma oportunidade de ampliar o olhar sobre o empreendedorismo negro feminino e reconhecer que investir nessas mulheres significa promover desenvolvimento econômico com impacto social.
“Quando fortalecemos uma mulher negra empreendedora, fortalecemos também sua família, sua comunidade e toda uma rede que cresce junto com ela. O protagonismo dessas mulheres precisa ser reconhecido não apenas em datas simbólicas, mas como parte permanente da construção de um país mais justo e com mais oportunidades”, conclui.
AfroEmpreendedorismo
Afroempreendedores podem se inscrever para a Feira Maria Felipa
Encerram neste sábado (25) as inscrições para a Chamada Artística e para a Feira Maria Felipa, iniciativas que compõem a 6ª edição da Festa Literária Arte e Identidade, a ser realizada entre os dias 16 e 18 de setembro, no Pelourinho. Podem participar autores, editoras, poetas, contadores de histórias, músicos, rappers, ilustradores, quadrinistas, empreendedores e criadores negros e indígenas independentes.
Os artistas interessados devem apresentar obras que dialoguem com o tema deste ano, “O Futuro é Ancestral – Arte e Literatura Afrofuturista”, enquanto os empreendedores podem inscrever produtos relacionados à cultura negra e indígena de forma mais ampla. As seleções buscam dar visibilidade a produções independentes, fortalecer a economia criativa e valorizar a diversidade de expressões culturais. O resultado será divulgado no dia 3 de agosto, no Instagram @arteeidentidadeoficial.
Tradicional na programação da Festa, a Chamada Artística seleciona produções autorais de artistas de Salvador e Região Metropolitana, especialmente aquelas voltadas para crianças e adolescentes negros e indígenas, contemplando diferentes linguagens, como literatura, música, teatro, artes visuais, quadrinhos, poesia e contação de histórias.
Já a Feira Maria Felipa é dedicada a empreendedores negros e indígenas que atuam com literatura, artesanato, moda, gastronomia e outros produtos culturais, fortalecendo a cadeia produtiva do livro e da economia criativa ao oferecer um espaço gratuito para exposição e vendas durante o evento.
Para a produtora geral, Sabina Henriete Possidonio, as duas iniciativas traduzem o compromisso do evento com a democratização do acesso à cultura e a valorização dos territórios criativos. “Mais do que garantir espaço para apresentações ou comercialização de produtos, a Chamada Artística e a Feira Maria Felipa permitem que esses talentos ampliem sua visibilidade, fortaleçam suas redes de contato e vivenciem a experiência de integrar um dos maiores eventos literários da Bahia. Queremos que cada participante se reconheça como protagonista dessa grande celebração da arte, da literatura e da identidade do nosso povo ”, destaca.
SERVIÇO
6ª Festa Literária Arte e Identidade – Inscrições abertas para Chamada Artística & Feira Maria Felipa*
Prazo: 25 de agosto (sábado)
Tema:“O Futuro é Ancestral – Arte e Literatura Afrofuturista”
Formulário: https://forms.gle/EGTJvgbrbA2e6cpg6
*Mais informações: @arteeidentidadeoficial
AfroEmpreendedorismo
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