Audiovisual
Day Sena e Iris de Oliveira dirigem doc “As travessias de Letieres Leite”
A pandemia deixou um rastro de tristeza, desamparo, indignação e perdas. Sem dúvida um momento turbulento que atravessou jornadas, trajetórias, interrompeu projetos, sonhos e mais de 700 mil vidas. Nesse tempo sombrio, a Arte perdeu inúmeros de seus estandartes em todo país. Um deles, o maestro Leitieres Leite, que teve sua viagem por esse mundo terminada em 27 de outubro de 2021, no auge pandêmico.
Uma viajem que ainda prometia muitas ideias, projetos, parcerias, muita música, inovação e legados. Essa história é contada no doc “As travessias de Letieres Leite”, uma ideia do próprio Leitieres desde 2017, interrompida pela Covid 19. Mas a semente foi plantada e, em 2021, a produtora Janela do Mundo deu continuidade ao projeto, superando todos os revezes de uma pandemia e convidando duas cineastas com atuações reconhecidas no Audiovisual baiano para dirigir a obra: Day Sena e Iris de Oliveira, que carregam em suas trajetórias a interseção entre
o Audiovisual e a Música.

Leitieres e Nara Couto
O convite para eternizar no cinema o brilhantismo do maestro, arranjador, percussionista, saxofonista, educador e compositor baiano, Leitieres Leite, que expandiu o universo afro-brasileiro da música percussiva da Bahia, chegou para as cineastas em um momento marcante, especialmente para Day Sena: este é seu primeiro longa-metragem em uma carreira de quase 25 anos no Audiovisual.
A première nacional foi em junho de 2025, na 17ª edição do In-Edit Brasil – Festival internacional do documentário musical. Em seguida, o documentário foi exibido no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. E, para encerrar o ano, participou da Seleção Oficial da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso (RN).
Como forma de tributo e reverência a Letieres, a trilha sonora do filme foi construída a partir de diferentes gravações de sua obra, com produção musical de Alê Siqueira, parceiro de longa data do mestre e discípulo de seus ensinamentos.

Em vida, o maestro participou ativamente da construção do roteiro, escolha de personagens e da definição de caminhos do filme. A partir do olhar de Day Sena e Iris de Oliveira, a intenção nunca foi a de ser um filme definitivo sobre Leitieres. A obra se concentra em seus últimos registros e entrevistas, buscando dar continuidade ao movimento que ele próprio iniciou, como explica Day Sena:
Um trabalho que contou com uma rede extensa iniciada desde 2021 e hoje fortalecida entre Day e Iris:
Iris de Oliveira chegou à co-direção e também como Montadora do doc, com a missão de organizar a natural não linearidade dos relatos, traduzindo a oralidade do Maestro em roteiro.
“Existem inúmeras formas de narrar uma trajetória artística — e esse desafio se intensifica quando a narrativa se constrói na ausência física de quem a viveu. A arte continua, a vida continua. A longa, não linear e quase enciclopédica (rs) entrevista de Letieres tornou-se meu principal guia narrativo. Uma conversa rica, atravessada por detalhes, memórias e causos. A partir dela, buscamos construir a espinha dorsal do filme: ora com trechos mais extensos de fala, ora com passagens que se aproximam de uma reflexão poética sobre os processos de criação musical. Foi também por meio dessa entrevista que recriamos trajetos e estabelecemos conexões com outras obras já realizadas sobre o Maestro, sobre a música baiana e sobre a música brasileira. Em muitos momentos do processo, eu me esquecia de sua ausência física: o impulso recorrente era o de pedir orientação, esclarecer dúvidas, compartilhar trechos em busca de aprovação”, explica Iris.
Uma jornada transcendente para ambas cineastas, uma vez que toda a maestria de Leitieres era conhecida pela presença da espiritualidade, ancestralidade da música percussiva. Ao longo do filme, Letieres revisita a juventude em Salvador, o início autodidata e os caminhos que o levaram da prática intuitiva aos estudos na Europa. Também aborda suas contribuições como arranjador, produtor e diretor musical de grandes artistas, e, principalmente, sua pesquisa sobre a herança das matrizes africanas na música popular brasileira.
Mas para além disso, havia o Método Leitieres Leite, o que o levou ao mundo junto com a cultura e a musicalidade da Bahia. O Método Universo Percussivo Baiano (UPB) é fruto de mais de 30 anos de estudos sobre a presença sonora de elementos de matriz africana na sonoridade baiana. E sobre ele o filme também se debruça a partir de uma longa entrevista com o Maestro, que conta seus primeiros contatos com essa musicalidade desde sua infância em Salvador.
“Encarei a montagem como uma experiência quase espiritual. Ouvir suas últimas entrevistas, decidir o que dessas longas conversas permaneceria no filme, pedir licença — ainda que simbolicamente — para decupar, selecionar e cortar seus depoimentos. Nunca me emocionei tanto editando um material. Cada avanço, cada recuo na montagem parecia exigir um gesto de cuidado diante da memória do Maestro. Depois disso, nenhuma música soava da mesma maneira”, lembra Iris.
Para Sena, “é uma honra prestar essa homenagem ao saudoso Letieres Leite, uma personalidade que sempre fez questão de afirmar seu legado, construído ao longo de uma vida dedicada à aprimoração e divulgação da música baiana, suas referências ancestrais e legitimidade. Um músico que traduziu em sua trajetória a inquietação de pesquisa e execução. Uma mente e corpo que não paravam”, lembra Day.
“O filme convida o espectador a revisitar arquivos sob outras perspectivas, a descobrir camadas, acessar memórias e aprender. Seguimos aprendendo com Letieres — esse músico profundamente baiano, que também forjou sua musicalidade em diálogo com outros territórios. Cabe a esta travessia não apenas preservar suas palavras, mas também lançar ao mundo novas possibilidades de encontro com elas”, conclui Iris de Oliveira.
Abrindo o ano de 2026, chegou a vez dos soteropolitanos assistirem ao filme, no encerramento da 21ª edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema, dia 1º de abril, no Cine Glauber Rocha. Haverá debate após a sessão:
18:00 – Sessão de encerramento
“As travessias de Letieres Leite”
Documentário / 84’ / 2026 / Cor / BA / Livre

Leitieres e Fabrício Mota
Day Sena: do primeiro longa ao primeiro curta
Diretora, coordenadora de Produção, Day tem formação técnica em Direção para TV pelo SENAC SP, graduação em Comunicação e pós em Marketing Estratégico e Docência do Ensino Superior.
Como proprietária e diretora da Salamandra Produções, já dirigiu mais de 80 programas de TV, sendo premiada 2 vezes no Festival de Gramado Cine Vídeo, e obras documentais. Atua na consultoria de projetos nacionais e internacionais, uma carreira extensa, reconhecida e em franca ascensão, pois vem aí seu primeiro Curta-Metragem:
E sobre o futuro, Day também revela novos caminhos da sua empresa Salamandra:
Foto Day Sena: Barbara Santos
Audiovisual
Documentário ‘Mulheres do Bando’ é premiado em festival
O documentário “Mulheres do Bando” estreou com pé direito e conquistou o Troféu Candango na Mostra Caleidoscópio, na categoria Melhor Longa-Metragem escolhido pelo Júri Jovem UnB, no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A premiação do primeiro longa-metragem da cineasta baiana Thamires Vieira foi realizada no último sábado (19), no encerramento do evento, no Distrito Federal.
“É uma emoção muito grande, passar por esse momento, começar o filme por aqui, por esse festival, nesse cinema, ser premiada pelo Júri Jovem com um texto tão emocionante sobre a importância desse trabalho. Acho que nasce uma artista que estava já em processo”, celebra Thamires Vieira, diretora do filme.
“Mulheres do Bando” reúne atrizes de diferentes gerações do Bando de Teatro Olodum, uma das mais importantes companhias negras de teatro do Brasil, em um mergulho afetivo e político pelas memórias, experiências e transformações vividas por essas mulheres dentro e fora da cena.
O filme olha para a trajetória do grupo a partir de suas atrizes, que construíram parte importante da história cultural de Salvador e do Brasil. Entre arquivos, ensaios, improvisações, conversas e silêncios, o documentário aproxima diferentes gerações para investigar o que permanece, o que se transforma e aquilo que ainda precisa ser dito. O elenco do documentário é composto por Edvana Carvalho, Valdineia Soriano, Merry Batista, Cassia do Valle, Luciana Souza, Rejane Maia, Arlete Dias, Naira da Hora, Jamile Alves e Ella Nascimento.
Produzido pela Terá Filme e distribuído pela Fistaile, “Mulheres do Bando” revisita a trajetória do Bando e exalta o protagonismo e o legado dessas mulheres na cultura brasileira, em sala de ensaio com vista mar vemos os processos criativos, depoimentos e material de arquivo. No filme, essa história é revisitada a partir das experiências de suas atrizes, que compartilham lembranças pessoais e coletivas atravessadas por questões de raça, gênero, afeto, pertencimento e transformação. Ao colocar em diálogo diferentes tempos e perspectivas, Thamires Vieira constrói uma narrativa sobre o que significa ser uma mulher negra em cena e na sociedade brasileira.
Mais do que recuperar uma trajetória, “Mulheres do Bando” propõe um encontro entre passado e presente. A memória se torna ponto de partida para perguntas sobre as conquistas alcançadas, as ausências que permanecem e as narrativas que ainda precisam ser construídas.
Audiovisual
Mostra de Cinemas Africanos segue com programação gratuita
A 9ª Mostra de Cinemas Africanos (@mostradecinemasafricanos) segue com programação gratuita em Salvador até quarta-feira (23), reunindo exibições de filmes e atividades formativas que ampliam o debate sobre as cinematografias do continente africano. Nesta semana, a agenda inclui uma masterclass com a cineasta burkinabé Chloé Aïcha Boro, um minicurso on-line sobre cinema de gênero e um fórum dedicado à crítica cinematográfica, festivais e cinemas não hegemônicos. A programação completa está disponível no site: www.mostradecinemasafricanos.com
Realizada na Sala Walter da Silveira e no Cine Lankiana, a Mostra apresenta 12 longas-metragens e 10 curtas, entre ficções e documentários de 11 países africanos, propondo um olhar para a diversidade estética do continente a partir do recorte temático desta edição: o cinema de gênero.
Entre os destaques da programação da semana está o Fórum “Crítica cinematográfica, festivais e cinemas não hegemônicos”, que acontece nesta segunda-feira (21), das 9h às 13h, na Facom/UFBA. O encontro reúne Ivonete Pinto, Juliano Gomes e críticos baianos de cinema, com mediação de Enoe Lopes Pontes e Regina Gomes.
A programação de filmes segue ao longo da semana na Sala Walter da Silveira, com sessões de curtas e longas-metragens que exploram diferentes gêneros, narrativas e perspectivas das cinematografias africanas. Entre os títulos estão As Desvirtuosas, O Pescador, Movimentos Concretos, Liti Liti, Independência Hoje, Minha História em Jebba, A Última Dança da Vergonha, Mobembo, Guardião dos Mundos, Roupa Suja e Por Detrás das Palmeiras.
Com curadoria da pesquisadora e produtora Ana Camila Esteves, a 9ª edição da Mostra busca afastar visões estereotipadas sobre os cinemas africanos e evidenciar a pluralidade de linguagens, narrativas e experimentações produzidas no continente.
A Mostra de Cinemas Africanos é realizada pela Ana Camila Comunicação e Cultura, com apoio da Embaixada da França no Brasil e do Instituto Francês. Em Salvador, conta com apoio financeiro do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura.
Serviço:
9ª Mostra de Cinemas Africanos
Quando: até 23 de setembro de 2026
Onde: Sala Walter da Silveira e Cine Lankiana – Salvador
Entrada: gratuita
Inscrições para atividades formativas: https://mostradecinemasafricanos.com/inscricoes2026/
Saiba mais em:
www.mostradecinemasafricanos.com
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Mostra de Cinemas Africanos acontece em Salvador
De 17 a 23 de setembro, Salvador recebe a Mostra de Cinemas Africanos (@mostradecinemasafricanos), com uma programação que reúne 22 filmes de 11 países e busca afastar visões estereotipadas sobre a produção audiovisual africana. Além das exibições de filmes, que acontecem na Sala Walter da Silveira e no Cine Lankiana, o festival realiza encontros com cineastas, críticos e pesquisadores em atividades como debate pós-sessão, masterclass, minicurso e seminário. Toda a programação é gratuita e está disponível no site: www.mostradecinemasafricanos.
A curadoria assinada pela pesquisadora e produtora Ana Camila Esteves destaca a pluralidade estética do continente a partir do cinema de gênero. O público poderá conferir uma seleção de produções recentes e inéditas no Brasil que transitam pela ficção científica, comédia, musical, romance, aventura e thriller psicológico. Temas como o uso da inteligência artificial no cinema e narrativas urbanas nas grandes cidades africanas também estarão presentes na programação.
Ao todo serão exibidos 12 longas-metragens e 10 curtas, entre ficções e documentários, provenientes de 11 países: Quênia, Senegal, Gana, Chade, Marrocos, Burkina Faso, Nigéria, Sudão, Tunísia, Benin e República Democrática do Congo.
Segundo a curadora, o foco desta edição surgiu do próprio processo de pesquisa, ao observar que filmes realizados em diferentes países e condições de produção se aproximavam pela maneira como elaboravam referências, linguagens e estéticas.
“A proposta é colocar em questão aquilo que aprendemos a reconhecer como cinema de gênero a partir de um repertório formado sobretudo pelas cinematografias estadunidense e europeia”, destaca Ana Camila Esteves.
Destaques da programação e presença de cineastas africanos
A abertura oficial da Mostra de Cinemas Africanos acontece no dia 17 de setembro (quinta-feira), às 19h, na Sala Walter da Silveira, com a exibição do filme Memória da Princesa Mumbi e a presença do cineasta, escritor e diretor suíço-queniano Damien Hauser, que também participará de debates sobre seu filme ao longo da programação. O longa é uma aventura romântica futurista, realizada com suporte da inteligência artificial.
Chloé Aïcha Boro, cineasta burkinabé conhecida por sua obra no documentário, também é uma das convidadas desta edição. A realizadora apresentará seu primeiro longa de ficção, As Desvirtuosas. O filme acompanha quatro mulheres expulsas de sua aldeia que formam uma comunidade às margens da sociedade, combinando humor, música e diferentes gêneros cinematográficos.
Boro também realizará uma masterclass gratuita na capital baiana, na qual compartilhará sua trajetória do documentário à ficção, analisando como uma narrativa familiar pode se transformar em cinema sem perder sua dimensão íntima, ética e política.
Outro destaque é o documentário “Crocodilo”, um suspense centrado em conflitos familiares, produzido pelo coletivo nigeriano The Critics, formado por jovens que começaram a produzir seus próprios filmes de gênero para a internet.
A programação inclui ainda títulos como “O Pescador”, comédia fantástica de Gana; “O Despertar de Anam”, produção queniana que aborda o luto por meio de elementos sobrenaturais; o thriller psicológico de “Por Detrás das Palmeiras” e o suspense policial de “Diya”; além de curtas de ação, comédia, ficção científica e sobrenatural.
SERVIÇO
Mostra de Cinemas Africanos 2026
Salvador – 17 a 23 de setembro
Abertura: 17/09 (quinta), às 19h, Sala Walter da Silveira
Sala Walter da Silveira (Rua General Labatut, 27 – Barris) e Cine Lankiana (Avenida Aliomar Baleeiro (Estrada Velha do Aeroporto), Km 10,5, 15, Cajazeiras)
Entrada gratuita.
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