Connect with us

Opinião

#Opinião – Uma Entrega para os Correios – Por Lázaro Cunha

Kelly Bouéres

Published

on

Divulgação
Divulgação

A crise na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, ou simplesmente os Correios, reacendeu mais uma vez os debates entre os defensores do modelo de gestão estatal e os privatistas. Os primeiros, a despeito dos prejuízos financeiros apresentados pela empresa, ainda consideram a gestão estatal a melhor solução para garantir a manutenção dos Correios e o cumprimento de sua missão institucional, que é “Conectar pessoas, instituições e negócios por meio de soluções de logística e comunicação acessíveis, confiáveis e competitivas”.

Ee, acrescento: a garantia do atendimento das demandas de um público que não é atraente para os sedentos grupos econômicos que desejam as melhores fatias do mercado da logística de entregas de produtos. Os privatistas, por sua vez, em uma suposta defesa da eficiência dos serviços da empresa, e da redução dos gastos públicos, pleiteiam a reestruturação e posterior venda da estatal para justamente os grupos econômicos que têm como objetivo principal a geração de lucros para os futuros acionistas.

Considero que a escolha do melhor modelo fica mais fácil quando lembramos do passado desastroso das privatizações das empresas estatais brasileiras, em governos anteriores, em que ativos nacionais foram repassados para a iniciativa privada com valores abaixo do justo, beneficiando membros da elite econômica nacional e internacional.

Nesse sentido, não vou me alongar esmiuçando os crimes de lesa-pátria cometidos nesses processos de privatizações para justificar a defesa da manutenção do modelo estatal.

Considero que o problema de segurança nacional mais iminente, que é a nossa dependência digital de empresas estrangeiras, coloca as discussões sobre o destino dos Correios em outro patamar em relação à querela entre defensores do modelo estatal e os privatistas.

Será que o cidadão brasileiro pode se sentir seguro tendo suas mensagens e dados coletados e manipulados por Big Techs estrangeiras, chefiadas por CEOs cujos perfis têm se mostrado fortemente contrários às políticas de diversidade e comprometidos com a subordinação dos países do Sul Global?

Pois é…

A despeito das legislações locais, que objetivam proteger o cidadão nacional, a exemplo da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), essas empresas estrangeiras têm compromissos mais fortes com as legislações e interesses de seus países de origem. Por exemplo, poderiam, a partir de um pedido oficial ou não oficial de seus governos, fornecer dados sigilosos de autoridades de países como o Brasil, tornando o nosso país vulnerável diante das disputas por hegemonia geopolítica.

Você já imaginou o que as empresas estrangeiras, em momentos de eleições, poderiam fazer no ecossistema das redes sociais gerenciadas por elas?

Essas empresas poderiam travar ainda mais o tráfego dos canais de informação de um dado grupo político e potencializar outros. Vazar e-mails, expor mensagens de aplicativos de bate-papo, filmar e gravar reuniões e utilizar essas informações para sabotar grupos e projetos contrários à subordinação em relação às grandes potências e suas representações nas elites locais.

Pensar que essas conjecturas são meros combustíveis para teorias da conspiração é ingenuidade e um completo desconhecimento de episódios como o escândalo da Cambridge Analytica ou os alertas feitos pelo ex-funcionário de agências estrangeiras, Edward Snowden.

De fato, esse histórico e as recentes movimentações dos dirigentes das Big Techs que flertam e se comprometem cada vez mais com o fascismo, o racismo, o sexismo e o poder exercido pelas grandes potências econômicas, corroboram para a necessidade de estruturação de estratégias para enfrentar a nova modalidade de colonialismo: o digital.

Por isso, considero que a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – os Correios – tem uma entrega muito importante e urgente para a sociedade brasileira: se modernizar e incluir no seu portfólio uma atuação forte nas tecnologias de comunicação digital de massa. Criando, por exemplo, aplicativos próprios de mensagem instantânea, canais de produção e exibição de vídeos, uma rede social popular e democrática, com tráfego de mensagens seguro, com proteção de dados pessoais, com respeito à liberdade de expressão, vinculado ao respeito à integridade dos usuários e comprometida com a segurança do Estado Democrático de Direito.

Ou seja, uma alternativa nacional aos serviços que são oferecidos por grandes corporações estrangeiras que, reiteramos, não têm compromisso real com a sociedade brasileira. Essa “entrega” seria bem natural para os Correios, que têm um histórico de séculos no cuidado das correspondências dos brasileiros de todas as partes do país.

Antes de falar em prejuízos financeiros, precisamos saber precificar a nossa soberania para não entregar de bandeja, ou melhor, pelos Correios, o que temos de mais importante como nação: a nossa liberdade e autodeterminação.

 

Divulgação

Lázaro Cunha – Graduado em Engenharia Mecânica, Mestre em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA) e diretor executivo do Instituto Cultural Steve Biko. 

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Artigos

#Opinião – Pai Omolu e o seu abadô para “farmar auras” no Brasil

Jamile Menezes

Published

on

Em Agosto, mês em que nosso pai Omolu se faz presente na Terra, voltamos nós, abiãs, yawos , ebomis, babalorixás e yalorixás a refletir sobre  exclusão, aceitação e a descoberta da beleza interior

Sim, refletir. Diversas narrativas sagradas dos Orixás nos revelam a profundidade de pai Omolu. Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo sofrem com problemas de saúde mental, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde OMS.

E o que você quer nos dizer sobre isso , Bernardes ? 

A depressão deve se tornar a doença mais prevalecente na população mundial até 2030. A saúde mental se tornou uma prioridade crescente no Brasil em 2026, com 67% da população planejando investir mais em bem-estar emocional. E a Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil) iniciou a coleta de dados inéditos sobre transtornos mentais e acesso a serviços de saúde.

Uma pesquisa que visa estimar a prevalência de transtornos como depressão, ansiedade, uso de álcool e outras drogas, além de comportamentos relacionados ao suicídio. A coleta de dados considera fatores como sexo, idade, escolaridade, renda e região, bem como experiências de violência, discriminação e adversidades na infância.

A principal cerimônia para Omolu em agosto é o Olubajé, o “banquete do rei” . Mas qual banquete você tem oferecido ao seu Ori (cabeça) diariamente? O Doburu ou Abadô é a comida ritual dos orixás Obaluaê e Omolu, é o milho de pipoca estourado em uma panela, em alguns lugares com óleo (dendê), em outros com areia.  Com o que você tem feito a sua pipoca ( pensamentos ) estourar ?

A tecnologia ofertada por Ogum pouco tem alimentado “boas estradas mentais” quando o assunto é serenar a alma e nos fazer refletir sobre quem somos como abiãs, yawos, ekedjs, ogans, ebomis, yalorixás ou babalorixás .

Depressão, ansiedade, transtornos de bipolaridades, transtorno compulsivo obsessivo,  esquizofrenia, bournout e até mesmo suicídio tem chegado aos holofotes com mais frequência do que anteriormente tínhamos  visto.

Pedidos de misericórdia têm dado ilá (sinal de que o orixá está em terra) mais alto e muito maior que o próprio barulho da “flor do velho” estourando na panela em pressão máxima no fogo.

E o que você quer nos dizer sobre isso , Bernardes ? 

Não há abadô , doburu ou recolhimento que alcance a cura e a sanidade total da matéria se o seu Ori já foi debulhado em águas sujas de seus próprios pensamentos. Transtornos mentais são a 3ª maior causa de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas de doenças osteomusculares e lesões, segundo o INSS.

O suicídio é a 4ª principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil, segundo a OMS.  O Brasil perde R$ 78 bilhões por ano com afastamentos e queda de produtividade relacionados a transtornos mentais, segundo estimativas baseadas em dados do INSS e Previdência Social.

Como você tem alimentado o seu Ori (cabeça) para verdadeiramente tornar o seu Odu (caminho/ destino) positivo? Até quando você vai aguardar que a “flor do velho”, em toda a sua misericórdia, faça o trabalho que é da sua responsabilidade diária fazer ?

Alimentar nosso Ori é alimentar nossa  consciência espiritual, o destino e a identidade divina de cada pessoa existente na Terra. 

E o que você quer nos dizer sobre isso , Bernardes ?

Quando falamos sobre alimentar Ori (cabeça), estamos falando sobre nutrir a nossa essência e a nossa energia da forma certa. Não temos ciência ou consciência do que foi acordado na nossa família espiritual no céu.

Não temos autoridade espiritual de dizer a quem quer que seja que o problema vivido pela pessoa é “coisa de orixá”, é “ximba de orixá” ou o ofó (palavra) de derrota que ela própria afirma sobre si diariamente. Mesmo após ter pago um ebó grandioso diante do seu igbá, ou da natureza, para afastar transtornos mentais momentâneos ou de natureza contíua; Ossá , por exemplo .

Em silêncio também se vivem loucuras internas. A dor tem sido tão grande entre nós meros mortais que, mesmo sendo pessoas de orixá, a sensação de não pertencimento tem tornado pessoas aparentemente formidáveis em seres Ori Buruku: pessoa que vive inventando mentiras e fazendo fofocas, porém quando questionado, pega a tangente e entra logo com outro assunto.

Com quem você tem caminhado diariamente? Com quem você tem compartilhado os seus desafios e vitórias diariamente? Quando você  percebeu que a sua reação era diferente diante da vitória de sua irmã (o) de axé, vizinha(o), colega de trabalho ?!

O que é do Orixá , entrega ao Orixá.

O que é do “Homem do Anel”, entrega ao “ Homem do Anel”.

Tempo, Iroko e Kitembo são Orixá, mas nem tudo se cura deixando essa energia quântica e mutável passar.

Deixo aqui essa minha humilde reflexão.

Patrícia Bernardes Sousa é yawo de Oxum do Ilê Axé Koboxê (Fazenda Grande IV Cajazeiras), jornalista, gestora e mobilizadora de projetos de Impacto Social. 

Continue Reading

Opinião

#Opinião – Oxum é a orixá amiga mesmo nas relações sem a presença física dela – Patrícia Bernardes

Kelly Bouéres

Published

on

Patrícia Bernardes

Quem tem amor bebe água fresca e quem tem ódio também. A água é ofertada tanto para quem deseja o bem quanto para quem deseja o mal. Como conviver com essa realidade? O ano de 2026 tem inquietado os seres humanos de tal forma que, ao notarmos que a justiça social se afasta do Machado de Xangô, o culto à revolta e à escassez de quem não é do nosso apreço sofreu um aumento significativo com o lançamento de ofó de pragas lançadas, mirando o tão sonhado final desejado por todos os feridos e magoados: o declínio, a derrota ou até mesmo a morte.

Oxum, yabá rainha plena das águas doces e potáveis existentes na Terra, vem se mostrando funcional em uma Terra disfuncional, sem fazer alarde, e nós, meros mortais, somos resistentes em aprender lições com a nossa ancestralidade. Sim. É sobre a dor da injustiça de não negar água fresca para quem comete violência psicológica, violência física ou vence batalhas temporárias de violência patrimonial que Oxum se faz presente. Dentro do seu ambiente doméstico, dentro do seu ambiente profissional, em meio às festas populares do local que você frequenta ou nas lágrimas quentes do nosso travesseiro, Oxum se faz presente, alimentando cerca de 60% de água (ACT) em um corpo adulto, entre os compartimentos intracelular e extracelular.

Ao longo dos séculos e com a intervenção das interpretações narrativas de seres humanos, a história da yabá Oxum nos conta, em vários itans (histórias), que a rainha das águas doces faz cessar as águas diante de um malefício de quem é bom ou mau. Na verdade, ela oferta abundantemente as suas águas, mas, diferente de cultos de retaliação como descritos na Igreja Católica ou Evangélica, Oxum mata a sede de todos, sejam estes de Ori sadio ou Ori adoecido.

Como lidar com a distância da justiça, do amor e do acolhimento nas relações atuais? Divindade feminina do panteão iorubá, Oxum nos presenteia com a sua sabedoria do espelho d’água e nos oferece o seu reflexo apenas para aqueles que entendem que somos nós que merecemos nos espelhar e refletir o que é bom. O autoabandono não é um desejo de Oxum. O autoabandono é o desejo sincero da saliva amarga de quem proferiu palavras disfuncionais contra nós mesmos ou foi alimentado pelos nossos próprios pensamentos que habitam em nosso Ori. Yabá Oxum nos ensina a não confundir força com insensibilidade. A missão de uma trabalhadora honesta é tão grande quanto a missão de uma rainha; o importante é enxergar a grandeza do que fazem.

Com quem você tem caminhado lhe torna mais próxima do que você deseja se tornar como pessoa? A coragem para mudar o que precisa ser mudado vem da sabedoria das águas que habitam dentro de nós. Tanto o ego, núcleo da personalidade de uma pessoa, quanto a inveja, sentimento irrefreável de possuir o que não é nosso, são alimentados pelo desejo de um desfecho que nos favoreça no individual e não no coletivo.

Oxum oferta água potável para todos os orixás presentes no Xirê de nossos Terreiros ou Templos, sendo eles de culto às nações Ketu, Angola, Bantu, Nagô, Umbanda, Ifá ou Jeje. Ser parte de uma corrente de luz também lhe exigirá a emanação da energia quântica do bem-querer. Para que nenhuma energia parasitária faça parte da sua caminhada na Terra, você é responsável pelo seu ofó na Terra.

Confiar é um verbo bitransitivo e pronominal. Colocar confiança em algo é entender que você já partiu da placenta, sua nascente, e segue para as inúmeras margens de aprendizado que, de tempos em tempos, sendo ele também um orixá, pessoas boas e pessoas ruins também irão parar ao seu lado para se lavar, se alimentar, matar a sua sede e seguir o curso do rio, testando a sua capacidade de se defender física e mentalmente.

Um dos maiores consolos da amizade é ter a quem confiar um segredo. Yabá Oxum lhe mostra que, durante toda a sua jornada, você terá todos os elementos da natureza lhe oferecendo aprendizado e todos eles, por merecimento ou não, foram regados com água doce e potável.

Cada ser humano defende o reino que governa. Como você tem defendido o seu?

Patrícia Bernardes Sousa é yawo de Oxum do Ilê Axé Koboxê (Fazenda Grande IV Cajazeiras), jornalista, gestora e mobilizadora de projetos de Impacto Social.

Continue Reading

Opinião

#Opinião – Consumidor negro não é nicho: é o mercado que o Brasil ainda não aprendeu a ler – Por Luciane Reis

Avatar

Published

on

Durante muito tempo, o mercado brasileiro tratou a população negra como público periférico, segmento específico ou tema de campanha em datas comemorativas. Esse erro de leitura custou caro. O consumidor negro não é nicho. É maioria demográfica, força de trabalho, base empreendedora, produtor de cultura, formador de tendência e agente econômico central para compreender o Brasil contemporâneo.

Os dados ajudam a desmontar a ilusão. No Censo 2022, 45,3% da população brasileira se declarou parda e 10,2% preta. Somadas, pessoas pretas e pardas representam a maioria da população do país. Ou seja: falar de consumidor negro não é falar de um recorte lateral do mercado. É falar de uma das principais chaves para entender consumo, renda, comportamento, reputação de marca e disputa por futuro no Brasil. O problema é que essa maioria ainda é lida por muitas empresas a partir de categorias rasas. O consumidor negro aparece como estatística de desigualdade, imagem de diversidade ou público de baixa renda. Raramente é analisado como sujeito econômico complexo: alguém que compra, compara, escolhe, rejeita, recomenda, boicota, empreende, cria valor e movimenta redes de confiança.

Essa mudança de olhar é fundamental. A população negra consome sob condições estruturais desiguais, mas isso não significa ausência de poder econômico. Significa que seu comportamento de consumo é atravessado por critérios como preço justo, acesso ao crédito, confiança no atendimento, reconhecimento simbólico, identificação cultural, qualidade percebida e coerência ética das marcas.

A desigualdade de renda continua sendo uma variável decisiva. Em 2022, o rendimento-hora da população ocupada branca era 61,4% maior que o da população preta ou parda, segundo o IBGE. Esse dado mostra que o consumidor negro opera em um mercado onde o desejo de consumo convive com restrições objetivas de renda, crédito, estabilidade e oportunidade.

Por isso, empresas que desejam se comunicar com esse público precisam abandonar duas ideias equivocadas: a de que basta baratear produtos e a de que basta colocar pessoas negras na publicidade. O consumidor negro não quer apenas preço baixo. Quer acesso digno, qualidade, respeito, atendimento sem discriminação, linguagem verdadeira e marcas que compreendam sua trajetória social.

Um estudo da PwC sobre o chamado “mercado da maioria” reforça essa leitura. A população negra representa 62% das classes C, D e E e 35% das classes A e B. Isso revela que raça e classe se cruzam de maneira decisiva na formação do mercado consumidor brasileiro. Ignorar essa composição é ignorar o próprio funcionamento econômico do país.Há também um elemento novo: o consumidor negro está mais atento à reputação das empresas. Pesquisa Akatu/DataRaça, citada pela Globo, aponta que 37,4% dos consumidores já recompensaram marcas que valorizam a diversidade, enquanto 24,6% deixaram de consumir empresas associadas a comportamentos racistas.

O mesmo levantamento estima que o consumo da população negra movimenta cerca de R$ 1,9 trilhão por ano no Brasil. Esse dado reposiciona a discussão. Diversidade racial deixou de ser apenas pauta institucional ou responsabilidade social. Tornou-se variável de mercado, de reputação, de competitividade e de sobrevivência empresarial. Marcas que não compreendem isso tendem a perder relevância, especialmente entre consumidores jovens, conectados e atentos às contradições entre discurso e prática.

Mas é preciso ir além da comunicação. O mercado negro brasileiro não é apenas consumidor: é também produtor. Levantamento do Sebrae divulgado em 2026 aponta que empreendedores negros somam 15,8 milhões de donos de negócios, o equivalente a 52,3% do total de empreendedores brasileiros. Esse número revela uma economia negra ativa, ainda que marcada por barreiras de crédito, escala, formalização, tecnologia e acesso a grandes cadeias de valor.

A leitura estratégica, portanto, precisa considerar pelo menos cinco perfis de comportamento econômico. Há o consumidor de acesso, que busca preço justo, parcelamento, segurança e redução de risco. Há o consumidor de ascensão, que compra educação, tecnologia, estética, carreira e bem-estar como projeto de mobilidade. Há o consumidor identitário, que valoriza marcas coerentes com diversidade, ancestralidade, pertencimento e representação. Há o consumidor empreendedor, que demanda ferramentas, crédito, formação, comunicação e inteligência de mercado. E há o consumidor negro premium, muitas vezes invisibilizado, que tem renda, consome produtos sofisticados, mas segue exposto ao racismo no atendimento e na experiência de compra.

Esse último grupo é especialmente revelador. Ele mostra que o racismo no consumo não está limitado à ausência de renda. Mesmo quando possui poder de compra, a pessoa negra pode ser tratada como suspeita, deslocada ou indesejada em determinados espaços. O problema, portanto, não é apenas econômico. É simbólico, cultural e institucional.

Para aprimorar estratégias de mercado, empresas precisam construir inteligência racializada de dados. Isso significa cruzar informações de consumo com raça/cor, território, gênero, geração, escolaridade, renda, ocupação, canal de compra, comportamento digital, recorrência, ticket médio, experiência de atendimento e percepção de marca. Não se trata de reduzir consumidores à raça, mas de reconhecer que a raça organiza oportunidades, restrições, desejos e formas de circulação econômica no Brasil.

Na prática, isso exige novas métricas. Não basta medir venda, alcance e engajamento. É preciso medir confiança, pertencimento, rejeição, recorrência, experiência de discriminação, representatividade percebida, presença de fornecedores negros, diversidade na cadeia produtiva e retorno econômico de campanhas com responsabilidade racial.

As marcas que compreenderem esse movimento terão vantagem. Não porque estarão “fazendo diversidade”, mas porque estarão lendo melhor o mercado. O consumidor negro não quer ser tratado como causa. Quer ser tratado como inteligência econômica, como público sofisticado, como sujeito de escolha e como protagonista de valor.

Nesse contexto, surge uma oportunidade para iniciativas como o Mercafro: organizar uma área de Inteligência de Mercado Negro, capaz de produzir relatórios, pesquisas, diagnósticos, dashboards, estudos setoriais e consultorias para empresas, governos e organizações do terceiro setor. O Brasil precisa de dados que expliquem não apenas quanto a população negra consome, mas como consome, por que consome, onde encontra barreiras e quais mercados pode transformar.

Os setores mais promissores são educação financeira, beleza, autocuidado, moda, saúde, tecnologia, turismo, cultura, economia criativa, formação profissional e serviços para pequenos negócios negros. São áreas onde consumo, identidade, renda, autoestima, pertencimento e futuro se encontram.

A questão central não é incluir o consumidor negro no mercado. Ele já está no mercado. A questão é saber se as empresas, instituições e políticas públicas terão capacidade de reconhecê-lo como maioria estratégica, agente econômico e produtor de futuro.

O Brasil que não entende o consumidor negro não entende a si mesmo. E o mercado que continua tratando essa população como nicho seguirá desperdiçando uma das maiores forças econômicas, culturais e simbólicas do país.

Luciane Reis é Comunicóloga, graduada em Publicidade e Propaganda pela UCSAL, especialista em Produção de Conteúdo para Educação e mestra em Desenvolvimento e Gestão pela UFBA e CEO Mercafro

Continue Reading

EM ALTA